Lembrança de Araripe Coutinho

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
A Feira Literária Inter
nacional de Paraty 
vai homenagear Hilda Hist, distinção talvez suficiente para despertar a poeira adormecida sobre ‘O caderno rosa de Lori Lamby’. Mas toda vez quando me deparo com um verso da ilustre anfitriã da Casa do Sol, assombra-me o fantasma gordo de Araripe Coutinho. A memória pouca dos sergipanos é capaz de o enterrar mais uma vez.
Conta-se muitas histórias sobre Araripe. Nenhuma faz justiça aos seus versos mais inspirados. ‘Nenhum coração’ (2008), o seu último suspiro literário, nunca foi páreo para a infinidade de causos protagonizados pelo poeta, de um requinte prosaico. O nu do Palácio Olímpio Campos, escandaloso, periga ser lembrado como o seu maior momento. 
Embora cultivasse uma imagem frívola, a ponto de assinar, em seus últimos dias, uma excelente coluna social, Araripe foi veículo de pelejas existenciais bastante agudas. Viado, preto e pé rapado, ele frequentava as altas rodas da província com a maior naturalidade do mundo, habitué de gente graúda. Quando as luzes apagavam, no entanto, sobrevinham poemas carregados de aflição e o poeta perguntava às paredes: "Quem vai me trazer um pêssego nessa noite de agonia?".
Em público, Araripe ria muito e falava alto. Na folha em branco, na ponta da pena, entretanto, o tom era outro, e ele se lamentava, sem preocupação com as aparências: "Se eu pudesse dizer como anda a minha casa…".
 
Nos livros, Araripe confessava o que jamais seria admitido em sociedade, quando o personagem das caras e bocas finalmente se calava. O seu eu lírico tinha sangue correndo nas veias. E se expunha em versos, certo de não ser realmente ouvido (aposta minha), como quem chorasse escondido e lançasse garrafas cheias de lágrimas ao mar.

A Feira Literária Inter nacional de Paraty  vai homenagear Hilda Hist, distinção talvez suficiente para despertar a poeira adormecida sobre ‘O caderno rosa de Lori Lamby’. Mas toda vez quando me deparo com um verso da ilustre anfitriã da Casa do Sol, assombra-me o fantasma gordo de Araripe Coutinho. A memória pouca dos sergipanos é capaz de o enterrar mais uma vez.
Conta-se muitas histórias sobre Araripe. Nenhuma faz justiça aos seus versos mais inspirados. ‘Nenhum coração’ (2008), o seu último suspiro literário, nunca foi páreo para a infinidade de causos protagonizados pelo poeta, de um requinte prosaico. O nu do Palácio Olímpio Campos, escandaloso, periga ser lembrado como o seu maior momento. 
Embora cultivasse uma imagem frívola, a ponto de assinar, em seus últimos dias, uma excelente coluna social, Araripe foi veículo de pelejas existenciais bastante agudas. Viado, preto e pé rapado, ele frequentava as altas rodas da província com a maior naturalidade do mundo, habitué de gente graúda. Quando as luzes apagavam, no entanto, sobrevinham poemas carregados de aflição e o poeta perguntava às paredes: "Quem vai me trazer um pêssego nessa noite de agonia?".
Em público, Araripe ria muito e falava alto. Na folha em branco, na ponta da pena, entretanto, o tom era outro, e ele se lamentava, sem preocupação com as aparências: "Se eu pudesse dizer como anda a minha casa…". Nos livros, Araripe confessava o que jamais seria admitido em sociedade, quando o personagem das caras e bocas finalmente se calava. O seu eu lírico tinha sangue correndo nas veias. E se expunha em versos, certo de não ser realmente ouvido (aposta minha), como quem chorasse escondido e lançasse garrafas cheias de lágrimas ao mar.

 

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