llhas em Relações: Conflitos, Sustentabilidade e Paz

Saumíneo Nascimento

O título deste artigo é o tema da Conferência Temática da União Geográfica Internacional (IGU) na sigla em inglês, que será realizada na Universidade Metropolitana de Osaka, Osaka, Japão, de 4 a 6 de abril de 2023. Segundo informações dos organizadores, a conferência será organizada em formato híbrido (uma combinação de sessões presenciais e virtuais) com a transmissão online de palestras.
Esta conferência irá analisar as ilhas a partir de três pontos de vista inter-relacionados: conflitos, sustentabilidade e paz. Importante destacarmos as conceituações sobre o que são ilhas. De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS) em seu Artigo 121, a ilha é uma área de terra naturalmente formada, cercada por água, que fica acima da água na maré alta. A perspectiva é a de que na conferência os debates conceituais auxiliem no entendimento de questões de soberania que envolvem as ilhas. Existe um entendimento para a organização do evento, de que uma ilha é imaginada juridicamente como uma entidade geográfica habitável para os seres humanos e como mediadora do controle soberano sobre os mares e terrenos marítimos que circundam a ilha. Esses elementos conceituais de uma ilha são chaves para entender como ela foi e é tratada nacional e internacionalmente.
Cabe destacar que as ilhas estão em várias formas e relações sociais, econômicas e políticas com outras ilhas e continentes. Enquanto algumas ilhas podem constituir um estado, outras podem ser dominadas por ilhas vizinhas ou estados continentais. As ilhas estão situadas em uma complexa teia de poderes soberanos. Essa situação pode ser chamada de relações continente/ilha exemplificadas pela colonização, territorialização, militarização ou marginalização. Conflitos podem surgir ao longo dessas linhas entre estados por ilhas (por exemplo, disputas territoriais ou guerras) ou entre o continente e uma ilha (por exemplo, anexação forçada ou separatismo). A conferência irpa investigar porque e como as ilhas estiveram/estão envolvidas em que tipo de conflitos ou relações de poder desiguais.
As ilhas são geograficamente caracterizadas pela oceanidade, afastamento e pequenez. Embora esses aspectos possam levar à sua vulnerabilidade socioeconômica, eles podem abrir ilhas para a pesca, redes inter-ilhas e comércio marítimo. O clima, a geomorfologia ou a ecologia, únicos das ilhas, também podem criar culturas, produtos locais e atrações turísticas distintas. Neste sentido, a sustentabilidade é crucial para o desenvolvimento das ilhas. No entanto, as relações continente/ilha podem distorcer esse desenvolvimento para a dependência do investimento, consumo ou finanças públicas do continente, levando ao aumento do controle do continente sobre uma ilha. A conferência irá examinar como o desenvolvimento sustentável das ilhas pode contribuir para a sua autonomia político-econômica.
Um aspecto a ser evidenciado é o de que ao contrário de uma imagem pacífica de ilhas, muitas ilhas tornaram-se campos de batalha entre as potências imperiais. Alguns deles ainda estão sob forte presença militar. Não há paz nessas ilhas, ou elas proporcionam paz ao continente. A conferência pretende perguntar aos geógrafos se a geografia fazia parte disso e como podemos praticar a geografia para a paz nas ilhas. As respostas podem ser duplas: epistemológicas e práticas. Epistemologicamente, podemos ser pegos na “armadilha territorial” (pensamentos baseados em território estatal homogêneo fechado) mesmo quando vemos ilhas. Para sua sustentabilidade, as ilhas se conectam a outras ilhas e continentes através dos mares, e esses elementos humano-geográficos constituem um espaço “liminar” (entre) como um meio de conectividade transnacional. Uma epistemologia territorialmente aprisionada precisa ser desconstruída. Praticamente, as fronteiras estaduais marginalizam as ilhas fronteiriças, enquanto as interações transfronteiriças, como o turismo de fronteira, o intercâmbio de cidades irmãs ou a iniciativa bilateral de desenvolvimento para a fronteira marítima, podem aumentar a sustentabilidade das ilhas sem criar tensões. Acreditamos que a geografia pode contribuir para promover tais interações e fortalecer as ilhas.
Cabe registrar que o conflito mais recente envolvendo ilhas é o que ocorre entre China e Taiwan. Taiwan (que também é chamada de Formosa) é uma ilha com aproximadamente 24 milhões de habitantes e fica a menos de 200 quilômetros da China continental. Taiwan tem um governo autônomo desde 1949 e se vê como um país independente; já a China vê Taiwan como uma Província separatista que eles esperam que retorne ao controle de Pequim.
Existem inúmeras ilhas em diferentes configurações geográficas e geopolíticas em todo o mundo.
O Brasil, por exemplo, possui cinco ilhas verdadeiramente oceânicas, localizadas entre 250 a 1.100Km de distância da costa, que são: Atol das Rocas, Arquipélago de Fernando de Noronha, Arquipélago de São Pedro e São Paulo, Arquipélago de Martin Vaz e Ilha da Trindade. Destacamos ainda que algumas capitais brasileiras estão ao lado do mar e são ilhas do Oceano Atlântico: Florianópolis, Vitória e São Luís.
Existem diversos países insulares, sendo que alguns abrangem arquipélagos inteiros com centenas de ilhas menores, já alguns outros países insulares incluem somente uma ilha principal, ou compartilham a mesma ilha com outras nações
Já o Japão, como um típico estado insular, consiste em aproximadamente 7.000 ilhas e continua a enfrentar muitos dos desafios mencionados acima. Assim, o Japão é um dos melhores lugares para realizar esta conferência. No entanto, a conferência está aberta a quaisquer estudos de caso em todo o mundo, desde que se enquadrem no tema principal do evento. Também está aberta a quaisquer Comissões da União Geográfica Mundial (IGU), geógrafos, outros cientistas, estudantes universitários e público que deseje compartilhar os temas. Após a conferência, será publicado um livro compilando os trabalhos selecionados. E nesse sentido, espera-se que esta conferência contribua para a criação de um mundo melhor, mais sustentável e mais pacífico através da geografia.

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