Milton Alves Júnior
A greve geral ocorrida ontem em Aracaju mobilizou milhares de pessoas ligadas a sindicatos e movimentos sociais desde as primeiras horas da madrugada de ontem, 28. Os primeiros atos ocorreram com o bloqueio de todas as garagens de ônibus do transporte coletivo em Aracaju e região metropolitana. Por volta das 2h30 – período em que os primeiros veículos saem da garagem -, toda a região já havia sido ocupada por motoristas e cobradores com o apoio da Central Sindical e Popular (CSP Conlutas). Agentes da Polícia Militar foram acionados para tentar convencer os militantes a desobstruírem o espaço, mas sem sucesso.
A mobilização que suspendeu o serviço público já era aguardada por parte dos passageiros e membros do Sindicato dos Rodoviários do Estado de Sergipe (Sinttra). Apesar de o presidente Miguel Belarmino ter comunicado por meio de nota a não adesão da categoria, foram criadas barricadas nas entradas das empresas Progresso, Atalaia, Modelo, Paraíso e Transporte Tropical. Sem ônibus, mais de 250 mil pessoas encontraram dificuldades para seguir com o respectivo roteiro.
De acordo com Elinos Sabino, membro da coordenação estadual da CSP Conlutas, o ato serviu para mostrar aos empresários que o desejo de garantia dos direitos constitucionais e promoção de avanços deve ser respeitado de qualquer modo, independente de qual seja a circunstância enfrentada pelo país. “Fechamos tudo meia noite e isso demonstra a força que fomenta a esperança de progressos, e não retrocessos. Essa reforma trabalhista encaminhada por Michel Temer é uma facada nas costas dos brasileiros”, disse.
Distantes cerca de 800 metros dos rodoviários, profissionais filiados ao Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Sergipe (Sintufs) também ocuparam parte da avenida Marechal Rondon, saída de Aracaju, e bloquearam os acessos à UFS. O ato começou no mesmo horário dos servidores do transporte coletivo, e contou com a participação de aproximadamente 60 servidores. Durante todo o dia de ontem as atividades estiveram suspensas. Cerca de 20 mil acadêmicos só devem retornar às salas de aula e laboratórios na próxima terça-feira, 02. Segundo o coordenador-geral do Sintufs Fábio dos Santos, é preciso que o governo recue, caso deseje retomar a ordem.
“Não iremos recuar enquanto o presidente ilegítimo continuar com essa postura antidemocrática e fascista. Em Sergipe mais de 50 categorias aderiram ao movimento e isso já deixa claro que o brasileiro não apoia as reformas trabalhistas e da previdência”, afirmou.
Para tentar minimizar os efeitos da falta de ônibus coletivo, a Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito (SMTT/AJU) decidiu liberar os taxis bandeirinhas a atuar na modalidade lotação. A permissão ocorreu às 6h30.
Comércio – No início da semana a Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) e a Associação Comercial e Empresarial de Sergipe (Acese) anunciaram a realização de ações publicitárias visando atrair clientes e aquecer as vendas para o Dia das Mães. A proposta fez com que dezenas de trabalhadores nesse setor se sentissem acuados e não aderissem à Greve Geral anunciada desde o último mês de março para o dia de ontem. Apesar da pressão recebida por centrais sindicais, os empresários decidiram abrir as lojas no horário de costume, às 8h; às 9h30 muitos estabelecimentos começaram a baixar as grades e suspender o atendimento externo.
Reunidos na Praça General Valadão, integrantes da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Movimentos Sociais e estudantes promoveram caminhadas pelos calçadões das ruas João Pessoa e Laranjeiras reivindicando o fechamento das portas. Mais de 150 pessoas participaram da marcha que serviu, também, como preparação para a caminhada realizada no período da tarde. Por prevenção, temendo possíveis desordens, os gerentes lojistas optaram por atender as ordens dos manifestantes. A Polícia Militar acompanhou o ato e não registrou saques, tumultos ou depredação do patrimônio público. A suspensão comercial ocorreu da mesma forma em lojas situadas nas ruas Capela e Divina Pastora.
“Durante a caminhada percebemos que a manifestação estava sendo apoiada discretamente por um grande número de lojistas. Longe dos gerentes e supervisores, alguns deles chegaram a acenar com o dedo positivo para nós, ou seja, eles foram obrigados a trabalhar mesmo tendo o direito de participar da greve. Não podemos aceitar essa imposição contra o trabalhador. A luta hoje é por todos que estão nas ruas, e por aqueles que apoiam o movimento, mas temem ficar desempregados e decidem ir trabalhar na marra”, informou a professora Adriana Canoas. Além dos agentes da PMSE, oficiais da Guarda Municipal de Aracaju e SMTT também acompanharam o ato.
Bloqueio – Ainda durante a madrugada, militantes sociais ligados ao Movimento dos Sem Terra (MST) ocuparam e bloquearam o fluxo de veículos em rodovias estaduais e federais. O trânsito foi interrompido nas BRs 235 e 101, no acesso ao município de Itabaiana; às 6h13 – Saída do Bugio pelo São Carlos, em Aracaju, fechada. Às 5h30 – Acesso ao município de Nossa Senhora do Socorro pela ponte do conjunto João Alves; 06h34 – Ponte do Marcos 2 fechada no acesso ao Porto Dantas; 6h52: Avenida Barão de Maruim, nas proximidades da rua Itabaiana, com registro de pneus queimados; 7h – Por determinação do prefeito Marcos Santana, a Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (SMTT) de São Cristóvão liberou o sistema de táxi lotação, fretamento e táxi bandeira para fazer o transporte de passageiros.
Às 7h03 – Foi a vez dos táxis cadastrados pelo município de Barra dos Coqueiros serem liberados; 7h21 – A ponte do Marcos Freire 2, que havia sido liberada voltou a ser fechada; 7h30 – Mercado Albano Franco aberto apenas com três portões; 7h35 – Trechos interditados na BR-101: Km 53 (Carmópolis), Km 70 (Maruim) e Km 89 (Viaduto de acesso à BR 235). 7h37 – Avenida Santa Gleide, em Aracaju, interditada. Fechados os acessos ao São Carlos e Jardim Centenário. Reunidos desde as três horas da manhã nas intermediações das cabeceiras da ponte do Rio do Sal, representante dos Trabalhadores em Telemarketing do Estado de Sergipe (Sindmarketing) foram acompanhados por agentes da PMSE.
Durante o ato um veículo e uma carrocinha acoplada foram apreendidos pelos militares. Conforme boletim de ocorrência, o automóvel estava sendo utilizado para carregar pneus a serem utilizados nas barreiras de fogo criadas pelos manifestantes. Ninguém foi preso. De acordo com o major Fábio Machado, comandante do 5º Batalhão da PM, apesar do clima tenso que fora estabelecido, o diálogo entre as partes prevaleceu.
Manifestação – Na tarde de ontem, já por volta das 15h, milhares de trabalhadores e estudantes se reuniram na Praça General Valadão antes de sair em marcha pelas principais ruas e avenidas do centro da cidade. O evento democrático de lutas foi organizado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), Força Sindical, Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) e União Geral dos Trabalhadores (UGT). A Polícia Militar não apresentou dados quanto ao número de manifestantes; segundo a coordenação do ato, mais de 25 mil pessoas, entre moradores da capital e demais 74 municípios sergipanos, estiveram presentes. Mais uma vez, os deputados André Moura (PSC) e Laércio Oliveira (SD) estiveram na mira dos militantes.
Durante os discursos, o professor Rubens Marques, presidente da CUT/SE, destacou a união das categorias, e avaliou a mobilização de ontem como uma das mais representativas já registradas na história de Sergipe. Sem medir palavras e críticas ao Governo Federal, o sindicalista incentivou os sergipanos a continuarem com o movimento até a queda dos gestores que votam contra os interesses das classes trabalhadoras. Dos oito deputados federais eleitos por Sergipe, dois votaram a favor da reforma trabalhistas (PEC 287/16). A pressão agora se volta aos senadores Eduardo Amorim (PSDB), Maria do Carmo Alves (DEM) e Antônio Carlos Valadares (PSB).


