* Afonso Nascimento
O objetivo deste texto é pôr em relevo dimensões geralmente esquecidas da vida de Marcélio Bonfim. Sei que tem uma biografia bem mais rica e complexa do que os aspectos tratados aqui. Tenho respeito por Marcélio Bonfim, um homem político com sangue sertanejo nascido em Canhoba em 1944. Esse filho da classe trabalhadora do sertão se tornou oitentão agora em 2024. Não tenho dúvida de que a sua história política ajudou a pôr Canhoba no mapa de Sergipe. Homem de ação, com sua cabeleira toda branca, nada tem de decrépito, parece ser um tipo impulsivo, inteligente, meio sem jogo de cintura e voluntarista.
O seu pai era um trabalhador de roça, que decidiu migrar para Aracaju em 1950, onde conseguiu emprego como vigia de matadouro. Tratava-se, portanto, de gente muito humilde. Sua mãe, uma mulher dona de casa e muito religiosa, também deve ter ajudado o marido na plantação. Funcionava assim no interior. Tendo se mudado aos cinco anos para Aracaju, Marcélio não chegou a pegar no cabo da enxada.
Seus estudos em Aracaju não foram além do curso ginasial (na Escola Ivo do Prado e no Grupo General Valadão), que antecedia o científico e o clássico naqueles tempos. Perdeu, assim, muitas aulas de História Geral e do Brasil, que teriam enriquecido ainda mais a sua compreensão do mundo. As suas atividades como coroinha de igreja de catolicismo popular causaram-lhe provavelmente alguma influência na formação dos seus valores, depois superados pelo materialismo histórico e pelo pragmatismo no dia-a-dia de sua vivência política.
Teve três empregos públicos na vida, o primeiro como servente da empresa de Água e Esgoto de Sergipe, o segundo como datilógrafo da DESO e o último na Secretaria de Administração, da qual se desligou ao aceitar o programa de desligamento voluntário (PDV). Os outros empregos foram como político (dois mandatos de vereador por Aracaju) e cargos de confiança na administração pública. Ocupou os postos de secretário-geral do PCB e de presidente do PT, os momentos mais importantes de sua carreira política. Sobre a sua participação no PCB, Marcélio é todo misterioso, mesmo em tempos de democracia. Quanto ao PT, errou ao se desligar desse partido social-democrata, do qual foi candidato a governador de Sergipe.
Foi preso três vezes no 28 BC, em Aracaju. A primeira vez aconteceu durante o episódio da renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961, quando ainda era estudante e menor de idade, aos 16 anos. Mais uma vez foi detido no 28 BC, por ocasião do golpe militar de 1964, ocasião em que se encontrava na Estação da Leste Brasileiro e tinha 20 anos. Nessas duas ocasiões, foi fichado, solto e mandado para casa. É possível que tenha levado uns gritos. A sua última prisão foi em 1976, aos 32 anos, durante a Operação Cajueiro, oportunidade em que foi barbaramente torturado por tropas do Exército da Bahia atuando em Aracaju. Marcélio já fez diversos relatos das torturas que sofreu nos primeiros dias de sua prisão e isso eu não quero repetir aqui.
Por que os militares iriam querer o cadáver de Marcélio Bonfim no 28 BC, em 1976? Por que justamente ele? Que informações tão sigilosas possuía Marcélio detinha que justificasse tanto maus tratos nas sessões de torturas? Pela minha experiência de leituras de IPMs de presos políticos, suponho que queriam saber como ele fugiu de Aracaju para Moscou, aos 22 anos; quem financiou a sua viagem de ida e volta e quem lhe deu cobertura com passaporte etc; que membros do PCB viviam em Moscou aguardando a oportunidade de voltar ao Brasil; quais os treinamentos doutrinários e militares que recebeu na capital russa; quem fazia parte da cúpula do PCB em Sergipe; quem estava na linha de frente na articulação dos candidatos universitários da Ala Jovem do MDB para as eleições de 1976; e quem financiava as atividades do PCB; e quem atuava nos meios universitários e sindicais de Aracaju em nome do PCB.
Passou noventa dias detido no quartel do 18 do Forte e saiu vivo para contar a sua história. Lembra que depois da prisão e morte de Vladimir Herzog em 1975, no DOI-CODI em São Paulo (que resultou na demissão do general Sílvio Frota, ministro do Exército, pelo general Ernesto Geisel), as autoridades militares em Sergipe usaram médico para monitorar as chances de algum preso político poder morrer por causa de torturas. Marcélio sobreviveu. Ele já relatou em diversos espaços que “escapou” com vida graças as reportagens que jornalistas sergipanos fizeram em jornais da Bahia e do Sudeste. Isso parece confuso, salvo melhor juízo, porque ele mesmo declarou que, depois de sair todo machucado de sessão de tortura no 28 BC, disse aos seus colegas de cela que eles poderiam falar “tudo”, porque eles também sabiam de “tudo”. Acho que ninguém queria matá-lo.
Vivendo em Moscou, entre 1966 e 1969, no tempo da URSS, Marcélio passou muito frio e sentiu muita saudade de sua família nos trópicos. Não falava inglês, francês ou russo. Por lá, com tudo pago pelos russos (não tem almoço de graça, dizem) aprendeu a manusear armas e obteve conhecimentos de liderança de organização clandestina. Tornou-se um quadro de elite. Deve ter circulado nos meios de brasileiros e hispano-americanos. Teve a oportunidade de visitar a Bulgária.
Aparentemente, Luís Carlos Prestes, o então decadente secretário-geral do PCB nacional (depois do fiasco de 1964), compreendeu o futuro que aguardava Marcélio no Brasil, se voltasse em 1969, depois de terminar o curso de formação política. Ele retornaria com a mesma escolaridade com a qual saíra do Brasil, o curso ginasial. Por isso, o seu “cavaleiro da esperança” o aconselhou a fazer mais estudos para aumentar os seus ativos escolares e, portanto, políticos. No entanto, o sertanejo sergipano não via hora de voltar para o Brasil e aqui desembarcou. Por não ter querido fazer novos estudos escolares na URSS (como Clodoaldo Cardoso na Alemanha Oriental, formado em Engenharia Naval), ele, mais tarde, se arrependerá dessa escolha.
Prestou uma contribuição àqueles que participaram da Comissão Estadual da Verdade, criada pelo governador Jackson Barreto, em 2015. Além de depoente como vítima do regime militar, nos ajudou como consultor sobre pessoas e assuntos complexos envolvendo o comunismo sergipano. Com frequência, comete exageros ao elogiar Walter Franco, um campeão do conservadorismo estadual – mesmo que tenha dado a sua contribuição à campanha das Diretas-Já em Sergipe.
Marcélio Bonfim é alguém que respira política. Não se cansa de dizer que sempre fez política, com e sem mandato. Estabeleceu para si o teto municipal da política sergipana, não indo além de dois mandatos de vereador e alguns cargos de confiança, se beneficiando de prefeitos ligados à esquerda. Recebeu a Medalha do Mérito Parlamentar da Assembleia Legislativa de Sergipe. Faltou-lhe capital político para ir mais longe. Quis fazer política ideológica junto a um eleitorado que só entende de clientelismo. Marcélio Bonfim tem sido um militante de esquerda de origem popular com compromissos com os trabalhadores das periferias de Aracaju que faz muita falta nas eleições municipais deste ano.
* Afonso Nascimento, Professor Aposentado da UFS


