Menores fazem refém no Bompreço

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

Um supermercado da rede Bompreço foi invadido às 13h de ontem por dois adolescentes armados que tentavam fugir da polícia, depois de assaltar uma joalheria no Calçadão da Laranjeiras, Centro de Aracaju. O incidente aconteceu a poucos metros dali, na Praça João XXIII, em frente ao Terminal Rodoviário Luiz Garcia, provocando pânico e apreensão em uma das áreas mais movimentadas da capital. Diante de centenas de pessoas, a dupla tomou uma funcionária da padaria como refém e ainda trocaram tiros com dois policiais que perseguiam os suspeitos.

Um dos disparos atravessou a perna esquerda do ambulante Adriano Silva Leite, que vende água mineral em frente ao supermercado. Ele perdeu muito sangue, mas foi socorrido ao Hospital de Urgência de Sergipe (HUSE), no Capucho (zona oeste). Segundo a assessoria da unidade, ele foi medicado na sala de sutura e está internado na Ala Verde, sem previsão de alta, mas passa bem. Outro tiro chegou a acertar a perna de um dos homens que perseguiam os suspeitos, mas a bala ricocheteou no celular do rapaz e não o feriu.

Os menores, com 16 e 15 anos de idade, se entregaram depois de uma tensa negociação que durou cerca de 40 minutos e envolveu dezenas de policiais militares que cercaram e isolaram a rua em frente ao Bompreço. Parte dos policiais ficou na contenção dos curiosos, enquanto outra equipe se encarregou de retirar todas as pessoas que estavam dentro do supermercado e negociar a rendição dos bandidos. Após a chegada da mãe de um dos captores, a funcionária refém foi liberada e, mesmo sem ter sofrido agressões, precisou ser atendida pelo Samu, pois sofreu uma crise de pressão e entrou em estado de choque.
Todo o drama começou na joalheria, em uma galeria do Calçadão, onde "Satanás" e seu parceiro entraram fingindo interesse em comprar e logo anunciaram o assalto. Depois de pegar as mercadorias, eles saíram correndo pelas ruas Capela, Geru e Santo Amaro, onde chamaram a atenção de um policial civil e de um soldado da PM. Segundo testemunhas, outros policiais se somaram à perseguição e tentaram cercar os menores, de armas em punho e dando voz de prisão. "Ao chegarem na esquina, houve a troca de tiros. Os menores dispararam contra um cidadão e acertou um vendedor que não tinha nada a ver. E foi aí que eles entraram na padaria do supermercado", relata o segurança Henrique Santos.

"Me solte!" – A entrada dos menores no supermercado assustou os clientes que faziam compras naquele instante. A dona de casa Maria Luzia Cardoso e sua filha Aline pagavam as mercadorias no caixa quando quase foram tomadas como reféns. "Foi de repente. Quando o menino passou o cartão e digitou a senha, começou aquele tiroteio, entrou um e chamou o parceiro. Foi aquela correria e ele veio tentar pegar a minha mãe", relatou Aline. Luzia, por sua vez descreveu que um dos menores segurava a faca e puxou a roupa dela pelo colarinho, mas não conseguiu dominá-la.
– Vem cá, tia! Num vô fazê nada co’a senhora não! (sic)
– Saia, me solte!
– Num vô fazê nada não, tia! (sic)
– Me solte! Me solte! Me solte!
Os clientes que estavam perto da porta do Bompreço fugiram, deixando as compras para trás, enquanto os outros correram para os fundos do supermercado e só saíram após o cerco montado pela PM. Após o fim do cerco, o supermercado fechou as portas e encerrou o expediente.

A partir daí, começou a negociação, reforçada por equipes do Batalhão de Radiopatrulha (BPRp), o Comando de Operações Especiais (COE) e até pelo comandante-geral da PM, coronel Maurício Iunes. Um dos adolescentes exigiu a presença da mãe, que foi avisada da ocorrência pelo telefone e chegou rapidamente ao local. Em seguida, ela conversou com o filho e convenceu os dois a se renderem, com os policiais garantindo que a integridade deles seria mantida. "Meu filho, que negócio é esse? Por quê você fez isso? Você tem mãe! Você tem pai!", desabafava a mulher, assim que a dupla foi apreendida.

Os captores foram levados para a Delegacia Especial de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca). Com os menores, foi apreendido um revólver calibre 38 com munições deflagradas, além de uma faca e vários relógios que foram roubados da joalheria. Segundo a PM, os dois rapazes são de Nossa Senhora do Socorro (Grande Aracaju) e já têm passagem pelo Centro de Atendimento ao Menor (Cenam) por assalto à mão armada. Um deles, conhecido como "Satanás", fugiu da unidade há 15 dias e é considerado o mais perigoso.
"Nesses 15 dias, ele já matou um desafeto em Socorro e realizou alguns assaltos. Ontem ele foi mais uma vez apreendido pela Polícia Militar e esperamos que ele consiga permanecer mais tempo no Cenam, para que a sociedade fique livre das ações delituosas promovidas por ele. Trata-se de um indivíduo bastante perigoso, que não hesita em colocar pessoas inocentes em perigo", disse o porta-voz da PM, tenente-coronel Paulo César Paiva, frisando que o menor já foi apreendido "reiteradas vezes".

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