Nem toda lesão acontece em campo: os impactos da Copa do Mundo na saúde ortopédica

* Natanal Sena

A Copa do Mundo é muito mais do que um torneio de futebol. Ela desperta paixões, une culturas e inspira milhões de pessoas a calçar as chuteiras ou simplesmente viver intensamente cada partida. Como médico ortopedista, observo esse período sob uma perspectiva diferente: a do corpo humano submetido a esforços, emoções e, muitas vezes, aos próprios limites.
Para os atletas profissionais, a Copa representa o ápice da carreira, mas também um dos momentos de maior desgaste físico. A intensidade dos jogos, a sequência de partidas em curto intervalo de tempo, as viagens, a pressão psicológica e o alto nível de competitividade aumentam significativamente o risco de lesões. Não por acaso, durante grandes competições vemos crescer os casos de lesões musculares na coxa e na panturrilha, entorses de tornozelo, lesões ligamentares do joelho- especialmente do ligamento cruzado anterior -, problemas nos meniscos e sobrecargas articulares que podem comprometer toda uma temporada ou até mesmo uma carreira.
O aspecto emocional também interfere diretamente na saúde física. O estresse altera a recuperação muscular, favorece a fadiga e pode comprometer a coordenação motora, tornando o atleta mais vulnerável a lesões. Em um torneio em que cada lance pode decidir uma classificação, muitos jogadores permanecem em campo mesmo sentindo dores, o que aumenta o risco de agravamento das lesões.
Do lado de fora das quatro linhas, a realidade não é muito diferente. A Copa desperta o desejo de voltar a praticar esportes. É comum que pessoas sedentárias organizem partidas de futebol com amigos ou retomem atividades físicas de maneira intensa e sem qualquer preparação. O entusiasmo, embora positivo, não substitui o condicionamento físico.
O resultado costuma aparecer nos consultórios e prontos-socorros: estiramentos musculares, rompimentos de tendões, lesões no joelho, dores lombares e inflamações decorrentes de sobrecarga. São lesões que, na maioria das vezes, poderiam ser evitadas com uma preparação adequada, aquecimento, fortalecimento muscular e respeito aos limites do próprio corpo.
Até os torcedores sofrem impactos ortopédicos. Horas sentado em frente à televisão, viagens longas, permanência prolongada em arquibancadas e a má postura podem desencadear dores na coluna, no pescoço e nas articulações, especialmente em pessoas que já convivem com problemas ortopédicos.
A Copa do Mundo nos lembra da extraordinária capacidade do esporte de mobilizar pessoas. Mas também reforça uma mensagem importante: o entusiasmo nunca deve superar os cuidados com a saúde. Celebrar o futebol é, também, respeitar os limites do corpo, investir na prevenção e compreender que o verdadeiro resultado é manter-se ativo, saudável e longe das lesões. Afinal, nem toda lesão acontece em campo- muitas começam quando esquecemos que o nosso maior patrimônio é o próprio corpo.

* Natanal Sena, médico ortopedista, especialista em cirurgia do joelho e intervenção em dor.

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