O Raso da Catarina é imensa planura rodeada por irregulares serranias. Seria o deserto brasileiro, caso não houvesse aqui uma natureza generosa a cobrir o chão ressequido com uma vegetação única no mundo: a caatinga. Naquelas paragens baianas, onde as chuvas não chegam a 400 milímetros anuais, se mantém, apesar de tudo, uma vida exuberante, graças àquela floresta teimosa, com seus galhos retorcidos aparentando estarem secos quando se alonga o estio, ou, esbanjando o verde e as flores nas trovoadas de verão, nos invernos dadivosos. Assim, torna possível a existência da variada fauna, evita a lixiviação do solo e impede a desertificação. Mas, como em todo o sertão nordestino, a caatinga ali encolheu. Resta, ainda, nas encostas das serras, em algum boqueirão de acesso difícil. São poucos os sinais da antiga e tão incomum cobertura vegetal. Diante dela, extasiou-se um correspondente do jornal ‘O Estado de S. Paulo’, marchando rumo a Canudos para cobrir o desatino de uma guerra entre irmãos da mesma pátria, porém, separados pelos azares da existência que os transformou em passageiros de classes diferentes no trem da História.
O correspondente era o jovem engenheiro militar tenente Euclides da Cunha, adido ao Estado Maior do Ministro da Guerra, Marechal Bitencourt que se deslocava para instalar o seu Quartel General nos arredores de Canudos. Lá, debaixo de uma tenda, no meio das asperezas do Raso da Catarina, supervisionaria as operações de guerra contra a gente pobre, de um povoado miserável, ao qual Antônio Conselheiro dera o nome de Arraial do Bom Jesus. Euclides, refinado intelectual republicano, cadete que se insubordinara diante do Ministro da Guerra do Império, estava dominado pela ideia de que os conselheiristas representavam uma ameaça à nascente República.
Depois, no desenrolar do conflito, corrigiria o equívoco ao escrever a sua obra fundamental: ‘Os Sertões’.
Domingo, dia 17 de janeiro, o Raso da Catarina estava mais ressequido do que nunca. Ao longo de cinco anos faltaram as trovoadas estivais e os invernos de boa chuva.
Um grupo, saído de Canindé, chega à cancela fechada a cadeado da entrada da Reserva Ecológica do Raso da Catarina. Numa casa ao lado, sede da administração, não há viva alma, talvez por ser domingo.
Dali em diante são quase cem mil hectares recobertos inteiramente pela caatinga preservada, onde, quase livre de caçadores, multiplica-se uma variada espécie de bichos, entre eles as araras azuis, já livres da extinção.
Para entrar na reserva é indispensável uma licença do IBAMA. Isso era sabido, mas o objetivo seria apenas traçar um roteiro de acesso para a Expedição Serigy, denominação do grupo que está sempre em busca de veredas, serras, praias, rios, nascentes, matas, na ânsia pela natureza remanescente.
Sendo impossível percorrer a Reserva, este escrevinhador, que por ali se acostumou a ir vez por outra, desde 1980, quando o Raso da Catarina estava ainda quase como Euclides o vira cem anos antes, propõe uma caminhada por uma trilha que acompanha a cerca delimitando a área protegida, mas, ao volante da camionete, Adailton consulta o termômetro e higrômetro, e anuncia: 46 graus de temperatura, 15 por cento de umidade do ar. Com o sol esbraseando o chão pedregoso e esterilizando o ar, que parece um luminescente vidro translúcido, Eliane e as duas sertanejas, todavia precavidas, Iara e Amanda, sugerem um retorno em busca de qualquer local onde houvesse sombra e água fresca.
Ainda longe, no horizonte, cresciam e avançavam em semicírculo, aquelas massas escuras que revoluteiam no ar como ondas gigantescas: as cumulus-nimbus. Sem o anúncio estrondoso dos trovões o vento já trazia de longe aquele sonhado cheiro de terra molhada. Antes que o sol no poente pintasse de rubro e dourado as nuvens escuras, caia sobre todo o Raso da Catarina a primeira chuva forte, após tantos verões e invernos de desesperanças. (CONTINUA)


