Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br
O último final de semana de 2013 também foi um dos mais violentos em Sergipe. Segundo dados do Instituto Médico-Legal (IML), 21 pessoas foram assassinadas entre 18h de sexta-feira e 7h de segunda-feira, sendo 18 vítimas de armas de fogo. O saldo superou a quantidade total de ocorrências registrada no feriado de Natal, que foi de 17 mortes – sendo sete homicídios, cinco acidentes de trânsito e quatro afogamentos.
Um dos principais crimes aconteceu às 14h de domingo, quando dois irmãos foram baleados enquanto foram na porta de um supermercado do conjunto Gilton Garcia, periferia de Itabaiana (Agreste). Segundo testemunhas, o crime foi praticado por dois homens que passaram pelo local em uma moto não identificada. Lucivaldo Dias de Jesus, 24 anos, morreu no local. Já o irmão dele teve um dos braços quebrado pelo tiro e foi internado no Hospital Regional Pedro Garcia Moreno. A unidade de saúde precisou ter sua segurança reforçada, pois, segundo informações, alguns suspeitos ameaçaram invadir o pronto-socorro do hospital, provavelmente para tentar matar o sobrevivente.
Estas são as mesmas características do assassinato do protético José William Santos Luz, 36, morto com quatro tiros na avenida José Conrado de Araujo, no bairro Industrial (zona norte de Aracaju). Testemunhas disseram que a vítima bebia na calçada de casa com um grupo de amigos, quando três homens passaram a pé e atiraram. Dois dos que acompanhavam o protético também foram baleados e socorridos ao Pronto-Socorro Nestor Piva, no 18 do Forte. Os matadores foram vistos correndo até um carro VW Golf, com o qual fugiram.
Outra morte foi a de Lucas Ferreira Souza, 19, baleado várias vezes no conjunto Jardim I, em Nossa Senhora do Socorro (Grande Aracaju), no começo da noite de sábado. Segundo a família, ele havia saído de moto para comprar pães e, após passar por uma esquina, quando já estava a caminho de casa, foi atingido e morreu antes da chegada do socorro médico. Um motivo apontado pelos irmãos de Lucas seria um incômodo causado pelo barulho da moto dele.
Dois adolescentes mortos no início da tarde de domingo, são ex-internos do Centro de Atendimento ao Menor (Cenam). O primeiro, Mario Farias dos Santos, 15, foi executado por três homens armados na porta da casa onde morava, no bairro Santa Maria (zona sul). Ele levou cerca de seis tiros. O outro, Gidelson da Silva Vieira, 17, levou vários golpes de faca no pescoço, também dentro de sua residência, no conjunto João Alves, em Socorro. O principal suspeito do crime é o tio do rapaz, José Gilson Figueiredo da Silva, que não foi encontrado pela polícia. O motivo do crime ainda é desconhecido.
Um dos últimos assassinatos registrados chamou a atenção pela crueldade. Wilson Alves Pereira, 34, o "Chegadinho", foi encontrado morto no povoado Ilha do Ouro, em Porto da Folha (Sertão), às 22h de domingo. O corpo foi achado com algumas partes arrancadas, como o rosto, as orelhas e o pênis, e profundos ferimentos feitos com golpes de facão. "Ele tinha ido lá pra passear, pra tomar banho, mas chegaram três caras e fizeram uma ‘bagaçada’ nele (sic). Eu quero justiça, pelo amor de Deus, não deixem eles impunes não, porque é uma barbaridade muito grande", apelou a cunhada, Vânia Silveira Linhares, estava indignada.
Causas – A polícia busca explicação para esta disparada dos homicídios. E a principio, apontou um culpado: o benefício da saída temporária para os presos do regime semiaberto. Na semana passada, 180 presos foram liberados pelo Departamento Estadual do Sistema Penitenciário (Desipe) para passar o natal fora da cadeia, com suas famílias. Ontem, a delegada Viviane Cruz Pessoa, coordenadora de Polícia Civil da Capital, afirmou que esta saída dos presos está diretamente ligada a algumas destas mortes, associadas a acertos de contas com criminosos.
"Daquelas pessoas que saem temporariamente do sistema prisional, uma parte quer realmente ver a família, quer ter uma oportunidade de se ressocializar, de ter uma segunda chance, mas tem uma boa parte deles que só espera aquele momento para o ‘acerto de contas’, para praticar outros crimes, os que não têm compromisso com nada e com ninguém. Esses são os que mais nos preocupam. Você sempre observa que sempre, na saída temporária, há um grande aumento nos índices [de crimes], e isso se deve ao fato desse ‘acerto de contas’. Foi o que nós experimentamos agora neste final de semana, com o aumento dos homicídios", disse a delegada.
Viviane diz ainda que a ascensão do crack, sobretudo na periferia e no interior, potencializou os crimes e tornou a apuração ainda mais difícil, pois muitos de seus consumidores passam a "não ter mais nada a perder e não ter mais nenhum valor pela vida". A delegada afirmou que as investigações dos assassinatos serão intensificadas pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), mas todo o trabalho da Secretaria de Segurança Pública será voltado para reduzir os homicídios no estado – segundo o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública, Sergipe ocupa o 5º lugar no ranking nacional de homicídios, com 40 casos para cada 100 mil habitantes. "Não queremos só elucidar, queremos impedir esses crimes", assegurou ela.


