O Homem que sorriu pra morte*

Lelê Teles

Lelê Teles

“(…)Os choros (…)não são fenômenos exclusivamente psicológicos ou fisiológicos, mas fenômenos sociais marcados eminentemente pelo signo da não-espontaneidade e da obrigação mais perfeita”, Marcel Mauss

Recebo, pelo zap, recorte de jornal que mostra um colega de infância algemado, pelos pulsos e tornozelos, descendo de um camburão.
Embora meio cabisbaixo e assustado, o prisioneiro mantém os olhos arregalados e fixos, como os de um leão acuado.
O sujeito, com uma juba desgrenhada, está cercado por um batalhão de jornalistas que lhe esticam microfones e lentes.
A atmosfera é de uma urgência tensão.
Os policiais seguram o desgraçado pelo colarinho, com o cuidado de quem teme se contaminar ou ser mordido.
Por cima dessa imagem terrível, a manchete grita, capslóckicamemte: “capturado o monstro do Gama que comia cadáveres”.
Li a matéria e fiquei chocado.
Chamava-se Altair, por causa de um refrigerante de guaraná o chamávamos de Taí.
Era um sujeito magro, alto pra sua idade, tinha o focinho de rato, os trejeitos de rato branco e cabelos de fogo, mal cuidados e sararás.
Fora meu colega de classe na quinta série, jogou na escolinha do Gama comigo, era um zagueiro ruim e trombador.
O pai bebia muito e o espancava, não tinha irmãos e perdera a mãe aos cinco anos de idade.
Contou-me, em certa ocasião, que por causa de sua estatura, não conseguira ver o rosto da genitora, pela última vez, dentro do caixão.
Essa não-imagem não lhe saía da cabeça.
Ainda na pré-adolescência, adquirira o estranho hábito de frequentar velórios, mesmo que de desconhecidos.
É que na minha infância, os velórios ainda eram eventos domésticos.
Colocava-se o caixão na sala de estar, abria-se as portas e o portão de casa e começava um frenético entra e sai de parentes, vizinhos e curiosos.
Taí tava sempre por aí, e quase sempre na categoria dos curiosos.
De acordo com a atmosfera do ambiente, ele chegava mesmo a chorar, tão envolvido ficava com o morto e com os vivos que carpidavam o cadáver.
Às vezes, enquanto jogávamos pelada no campinho de terra, ele avistava um cortejo de carros rumando ao cemitério.
Largava tudo, saía correndo e pongava na carroceria do caminhão.
Sempre, no final da fila de carros de um cortejo, tinha um pequeno caminhão, alugado pela família do defunto, e que servia pra levar os vizinhos pobres que não tinham automóvel.
O velório e o enterro eram eventos que envolviam toda a comunidade.
No caminho, Taí colhia informações sobre o morto: nome, sexo, idade, causa mortis…
Munido dessas indispensáveis informações, Taí chegava ao cemitério pronto para, como observou ¹marcel maus, expressar sua dor e sua tristeza.
Um dia, ventilaram no bairro que morrera, na rua de cima, uma jovem muito, muito bonita.
Aluna da sexta série, ela tinha acabado de ganhar, na escola, o concurso de rainha da primavera.
Na saída, contrariando professores e colegas, teimou em ir embora pra casa debaixo de uma chuva torrencial e inesperada.
No caminho, um raio a atingira em cheio. Teve morte instantânea.
A tragédia provocara uma onda de comoção no bairro e na escola.
A meninada especulava como deveria estar a expressão dela no caixão: triste, assustada, com esgares de quem sentiu dor ou a maquiagem fúnebre camuflara o sofrimento pra manter a imagem de princesa da menina?
Não chegamos a saber, a nossa curiosidade não chegava a tanto.
Taí foi.
Ao chegar na porta da casa da menina, ele pegou, do chão, o ramo de uma flor vivamente rubra que talvez caíra do caixão ou de alguma coroa fúnebre.
Levou consigo.
Ao entrar na sala, cheia de adolescentes chorosas e velhas murmurantes, taí foi até o caixão e olhou fixamente para a jovem.
Lindamente bela, ela mantinha uma expressão serena e calma, como a da branca de neve morta.
Taí chegou bem perto dela.
Por causa da sua altura, os rostos dos dois estavam muito próximos.
Taí, por algum motivo, achou que a defunta se parecia com sua mãe quando tinha a idade dela, imagem que ele nunca vira.
Inventara aquilo pra si mesmo.
Tomado por uma tristeza genuína, Taí colocou a flor vermelha atrás da orelha direita da ex-rainha da primavera.
Enquanto se debruçava, ele fechara os olhos.
Erguendo-se em recuo, ao abrir os olhos, viu a perfeita composição do rosto da jovem e a flor escarlate.
Taí percebera, então, que o cadáver sorria.
“Ela sorriu pra mim”, ele gritou, tomado por uma súbita felicidade.
“Valei-me, minha nossa senhora”, acudiu uma idosa carola com um terço de contas na mão.
Houve um burburinho geral, misto de reprovação e curiosidade.
Um homem de mãos cabeludas o afastou rispidamente do caixão.
“O que ele disse?”, perguntou uma senhora que talvez fosse a mãe da garota.
Toda vestida de negro, prostrada numa cadeira e banhada em lágrimas, essa jovem senhora, tão bela quanto a defunta, aproximou-se do caixão e não percebera nada de anormal na expressão da filha.
Outros parentes se aproximaram e também ninguém percebeu um sorriso no rosto da mocinha.
Por causa do ângulo em que estava, o enquadramento provocou em Taí o que chamamos no cinema de ²efeito Kuleshov: a flor fez parecer que o cadáver sorria.
Taí insistiu, reiterou diversas vezes sua afirmação, ele não tinha dúvidas, a moça estava sorrindo.
Desconhecido por todos e tido como louco, Taí foi retirado do velório debaixo de xingamentos, sopapos e ponta-pés.
Depois desse episódio ele se mudou pra outro bairro e nunca mais o vimos.
O vejo agora, quarenta anos depois, feroz e assustado como um leão de zoológico.
A matéria conta que ele chegara ao hospital com calafrios, acometido por uma estranha enfermidade, acompanhada de uma inesperada tuberculose.
O doutor detectou, no intestino do meu colega de infância, uma bactéria que o comia por dentro.
O diabo, percebeu o médico, estupefato, é que esse é um micro organismo encontrado somente no corpo dos cadáveres.
São bactérias que ajudam na sua decomposição.
Aí o troço virou caso de polícia.
Espremido por interrogatórios, Taí revelou que trabalhava, há dez anos, no iemiéle.
Contraíra o patógeno numa parafílica sessão de necrofilia.
Há dez anos, ele vilipendiava cadáveres de garotas jovens.
A matéria conta, ainda, que os presos, apavorados com a presença daquele monstro, o mataram na cela a golpes de socos e sufocamentos.
Achei errado.
Deveriam deixá-lo viver o seu sofrimento, para que as bactérias, o comendo vivo, fizessem dele um cadáver insepulto.
Palavra da salvação.

* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista

¹ Em “A expressão obrigatória dos sentimentos” (1921), Marcel Mauss analisa lamentos fúnebres e mostra que o choro e a dor são obrigações sociais, transformando sentimentos espontâneos em fatos sociais.
² O Efeito Kuleshov é uma técnica de montagem cinematográfica, criada por Lev Kuleshov nos anos 1910-1920, que prova que o contexto de uma cena molda a interpretação do espectador

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