Vânia Azevedo
Como se fosse um texto criado pelo GPT-4, Bolsonaro desembarca no Brasil nesta quinta-feira (30/03), depois de noventa dias em Orlando, Estados Unidos, mais amaciado do que chuteirade jogador antes de utilizá-la. Portanto uma versão renovada e bisonha que, na visão confiante dos seus colaboradores, aquele Bolsonaro briguento, inconveniente e misógino que configurou o período de 2018-2022 (como o Presidente que menos trabalhou e mais descansou), definitivamente ficou para trás.
Assim chegou o Sassá Mutema da modernidade, o mito fujão, numa versão milagrosamente renovada. Desembarcou no aeroporto de Brasília portando colete a prova de balas e tudo mais (certamente imaginando ser alguém importante o suficiente para merecer um ataque terrorista). Isso me leva a crer que esqueceram de avisá-lo de que os terroristas estão presos desde o 8 de janeiro (e os que estão soltos, a essa altura, devem ter aprendido a lição, depois de abandonados pelos patrocinadores do “golpe”); e outro atentado à faca nesse momento seria impensável, pois, fere o princípio da originalidade.
Contudo, o que ele não esperava mesmo era uma recepção tão desprovida de calor humano. Faltou a turma enlouquecida com a volta do mito, a fazer “arminha”, e a festa imaginada ficou só nos seus melhores sonhos. Sim, porque no aeroporto tinha mais curiosos do que admiradores identificados pelas cores nacional. Até porque, passada a era Bolsonaro, já não temos vergonha de usar a camisa da seleção brasileira; de maneira que, hoje, voltar a usá-la já não fere a nossa índole.
Porém, o que se viu mesmo ao longo do percurso até o hotel (onde os membros do Partido Liberal o aguardavam), foi uma movimentação e trânsito típicos de uma manhã de trabalho na capital do país. Aguardando-o estava também a família e uns poucos amigos, que se reuniram no salão do referido hotel para render-lhe as boas-vindas. E mais uma vez o convidado deve ter se decepcionado, pois, somados os poucos gatos pingados e demais curiosos que ali se encontravam, estavam em números infinitamente menores do que a turma que, no passado, o aguardava todas as manhãs no “cercadinho da presidência”; ocasião geralmente destinada a desferir toda sua ira matinal à imprensa.
Todavia, precisamos admitir que quem estava chegando não era um ex-presidente qualquer. Sua visibilidade segue em alta mesmo após findar o seu governo. Os processos a ele conferidos, somam-se às consequências de sua conduta irresponsável na sua forma de governar. Estamos falando de um governo cujos representantes contabilizaram 150 viagens à Arábia Saudita em quatro anos. Incrível! O que explica o quão expressivo foi o volume de “negócios”, justificando dessa maneira a generosidade saudita brilhantemente expressada, literalmente, a peso de joias.
Porém, nada me chamou mais a atenção do que as palavras de Ciro Nogueira (PP) ao falar da sua expectativa com a chegada do “novo Bolsonaro”, quando salientou estar confiante na chegada do presidente de honra do PL, acreditando que, agora mais descansado (descansado ele sempre foi), o grilo falante está voltando com um novo perfil: mais comedido, tolerante, e disposto a fazer oposição a esse governo; prometendo exercer uma liderança que o reconduzirá de volta à presidência em 2026.
A impressão que tive é que o Sr. Ciro Nogueira (PP) em suas doces palavras (em entrevista a Datena), estava falando de outra pessoa, jamais de Bolsonaro. Porém, como salientei nas primeiras linhas, tudo é possível na era da inteligência artificial, até mesmo umbu travoso se transformar em mel de uruçu.
Vânia Azevedo é professora


