O PIB e as condições de vida

Saumíneo Nascimento
saumineon@gmail.com

Um relatório divulgado recentemente, a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD), destaca que o Produto Interno Bruto (PIB) não é suficiente para saber se as pessoas estão em melhor situação. A entidade ressalta que o PIB continua sendo essencial, mas não consegue medir se as vidas estão melhorando.
Em um novo relatório das Nações Unidas existe a proposta de 31 indicadores para acompanhar o progresso além da produção. De acordo com o informe da UNCTAD, trata-se do primeiro plano da Organização das Nações Unidas (ONU) desse tipo solicitado pelos Estados-membros. A estrutura abrange os efeitos transfronteiriços, desde as emissões até as cadeias de abastecimento.
A UNCTAD, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e seus parceiros apoiarão os países que decidirem experimentar a metodologia apresentada.
Cabe registrar que na visão da UNCTAD, o Produto Interno Bruto (PIB) mede o valor dos bens e serviços produzidos em uma economia. Sendo há muito tempo considerado o indicador global de progresso. Mas a entidade alega que em uma economia em crescimento ainda pode deixar as pessoas mais pobres sem segurança, confiança, oportunidades e esperança.
O relatório da UNCTAD argumenta que os governos precisam de uma forma mais abrangente de avaliar se o desenvolvimento está funcionando. Não propõe substituir o PIB, mas sim complementá-lo com um sistema de avaliação prático que capture o que o PIB não demonstra: bem-estar, equidade, sustentabilidade e resiliência.
Para a entidade, crescimento não é tudo, pois entre 1980 e 2025, a atividade econômica global contraiu-se apenas duas vezes: durante a crise financeira de 2009 e a pandemia de COVID-19 em 2020. Em termos de PIB, o mundo raramente esteve tão próspero. Contudo, a confiança nas instituições diminuiu, a desigualdade aumentou em muitos lugares e as pressões ambientais se intensificaram. Em alguns países ricos, os jovens relatam altos níveis de ansiedade e isolamento. A discrepância entre o desempenho econômico e a realidade vivida está se tornando cada vez mais difícil de ignorar.
“O que medimos determina o que valorizamos”, disse Pedro Manuel Moreno, Subsecretário-Geral e Secretário-Geral interino da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). “Essa é a questão que este trabalho agora coloca no centro da agenda internacional.”
A proposta envolve um painel de controle para a economia real, destacando-se que no relatório existe a proposta de 31 indicadores organizados em torno de quatro áreas: paz, direitos humanos e respeito pelo planeta; bem-estar atual; equidade e inclusão; e sustentabilidade e resiliência.
Conforme especificado no estudo da UNCTAD, o sistema de avaliação monitoraria as condições materiais, saúde, educação, coesão social, qualidade institucional, condições ambientais, pobreza, desigualdade e os ativos que as sociedades transmitem às gerações futuras, incluindo capital produzido, humano, social, institucional e natural.
Referido sistema foi concebido para que cada país se aproprie do processo, permitindo que os governos o adaptem às suas prioridades e capacidades nacionais. Quase metade dos indicadores deriva dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, o que significa que muitos países já possuem sistemas de dados implementados.
A UNCTAD entende que neste momento este ponto é importante porque diferentemente das iniciativas anteriores, este relatório incorpora uma dimensão política. Ele foi elaborado em resposta a uma solicitação direta dos Estados-Membros no âmbito do Pacto para o Futuro e agora avançará em um processo intergovernamental na Assembleia Geral, liderado pela Espanha e pela Guiana. Além disso, reconhece que o progresso não termina nas fronteiras. O bem-estar de um país pode ser determinado por decisões tomadas em outros lugares, por meio de emissões, comércio, finanças, tecnologia e cadeias de suprimentos.
A UNCTAD, juntamente com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e parceiros em todo o sistema das Nações Unidas, apoiará os países que decidirem começar a testar a estrutura. “O PIB nos diz a velocidade de crescimento de uma economia”, disse o Sr. Moreno. “Ele não nos diz para onde estamos indo, o que estamos deixando para trás ou o que estamos legando para a próxima geração.”
Importante destacar que a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) desempenha um papel ativo na promoção da agenda “Além do PIB” em nível global, como parte da copresidência do Grupo de Especialistas de Alto Nível sobre “Além do PIB”, contribuindo com análises, estatísticas e conhecimento especializado em políticas públicas. Destaco ainda que o Índice de Crescimento Inclusivo da UNCTAD complementa as medições econômicas tradicionais ao incorporar indicadores sobre distribuição de renda, padrões de vida e sustentabilidade ambiental. Ele revela desigualdades significativas entre e dentro dos países, demonstrando que um maior crescimento do PIB não leva necessariamente a resultados de desenvolvimento inclusivo.
É importante que a sociedade conheça este esforço conjunto da UNCTAD em avaliar as condições das pessoas ao redor do mundo para além do PIB, destacando que o progresso dependerá do esforço coletivo que a longo prazo, os governos, as instituições e a sociedade realizem. A UNCTAD recomenda que os governos invistam em estatísticas, dados e inovação; que os países estabeleçam iniciativas nacionais para medir o progresso; que as Nações Unidas apoiem a implementação e que a sociedade civil e outros atores apoiem a mensuração e a responsabilização do alcance de uma vida e um futuro melhor para a humanidade.

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