O PRIMEIRO DE MAIO E AS DUPLAS SERTANEJAS

Faz tempo não se vive no Brasil um ruidoso Primeiro de Maio. As manifestações que sempre marcaram o transcurso do Dia Internacional do Trabalho, ou do trabalhador, seria mais exato, desapareceram, sumiram como por encanto dando lugar às multidões atraídas pelo sorteio de carros, passagens para Miami, e o som caipira das duplas sertanejas. Em São Paulo as centrais sindicais engolfavam-se numa acirrada competição para levar mais gente aos seus eventos, anunciando, todas, um espetáculo mais atraente. De acordo com a tendência de cada uma eram convidados políticos do governo ou da oposição, e depois as entidades sindicais festejavam o sucesso anunciando os números alcançados.
Assim transcorreram os nossos últimos Primeiro de Maio. Pelo mundo, de Paris a Moscou, de Buenos Aires a Tóquio, grupos percorriam as ruas, protestando, todos movidos por alguma forma de insatisfação ou de inconformismo, até de revolta, e não raro, entrando em choque com a polícia.
No Brasil, em vez de gritos de protestos, ouviam-se as duplas sertanejas.
Nos tempos de Getúlio Vargas, (1930- 1945) o Primeiro de Maio não foi riscado da agenda oficial, pelo contrário, inspirado na legislação trabalhista do fascismo italiano, se fez a organização da massa trabalhadora sob a batuta do Estado e da figura carismática de Getúlio, o ¨pai dos pobres¨. O primeiro de maio era sempre o pretexto para o encontro festivo do ditador com o povo. O local era o estádio São Januário.  Getúlio assim começava os seus discursos: ¨Trabalhadores de Brasil¨, quando anunciava o novo salário mínimo, uma das muitas conquistas oferecidas de cima para baixo, do poder, ao trabalhador. Oferendas assim, faziam parte de um pacto, pelo qual o Estado provia, e o trabalhador emudecia, junto com as suas organizações sindicais, formadas em cada estado da federação pelas Delegacias do Trabalho.
No interregno preenchido pelas duplas sertanejas, o que teria acontecido no Brasil?
Um operário com faixa verde e amarela e diploma na mão, o segundo que ele conquistara além daquele de torneiro mecânico, entrou festivamente no Palácio do Planalto. Saído do movimento sindical, passageiro nordestino de um pau-de-arara, ele fez um achado fundamental: a descoberta do povo. Queiram ou não queiram aqueles que patrocinaram a mazorca da República do Galeão contra Getúlio, as rebeliões de Jacareacanga e Aragarças contra Juscelino, e os que transformaram a indecência do Mensalão no único escândalo brasileiro a ser apurado, visando Lula, esses três presidentes ameaçados, foram responsáveis pelas maiores mudanças ocorridas no Brasil.
Mas então, por que o povo está nas ruas?
Simplesmente, porque não existe satisfação completa nem euforia que sempre dure.
O Brasil é enorme, os nossos problemas são imensos, e o povo descobriu que a democracia lhe permite reclamar daquilo que lhe afeta e também do que fazem os ocupantes do poder.
E hoje existem as redes sociais. A liberdade de expressão não pode ser suprimida, nem há mais cavalos a investir contra quem protesta.
As centrais sindicais saíram à frente das manifestações da quinta-feira, dia 11, fizeram seus atos organizadamente. Os sindicalistas que protestavam lutaram até fisicamente contra os baderneiros, e deles tomaram ¨coquetéis molotov¨, mas, ficou demonstrado que as centrais perderam a capacidade de mobilização que antes possuíam. Foram ultrapassadas por terem imaginado que o Primeiro de Maio poderia ser preenchido com duplas sertanejas, e por não terem identificado, a tempo, o que pode fazer a juventude com acesso à Internet. Por isso, saíram na rabeira.

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