O reality show que realmente interessa

* Paulo Franklin

Quando eu era criança, tremia de medo de entrar no quarto da minha avó. As variadas imagens de santos que ela ostentava sobre a cômoda de madeira antiga pareciam olhar para mim. Como eu não entendia o que aquelas figuras representavam, evitava a todo custo chegar perto delas. Mais tarde entendi algo simples: uma imagem boa pode parecer ameaçadora quando não sabemos interpretar o seu papel. O problema nunca esteve nos santos, mas no olhar imaturo com que eu os via.
A vida é parecida. Muitas coisas que julgamos perigosas ou estranhas são apenas mal compreendidas. Curiosamente, fazemos isso também conosco. Vivemos interpretando papéis, situações e pessoas sem, muitas vezes, entender o que realmente está acontecendo dentro e fora de nós.
Olhemos para a programação da TV. Todos os dias surgem jogos de competição com pessoas confinadas, sendo observadas, julgadas e votadas. Enquanto muitos se entretêm assistindo a esses programas, não percebem o jogo invisível que acontece em silêncio dentro deles: um reality muito mais exigente, sem intervalos e sem botão de desligar, o da nossa própria vida.
Dentro de cada pessoa existe algo que poderíamos chamar de “anjo”. É o desejo de cuidar, perdoar, proteger e oferecer o melhor de si, mesmo quando ninguém está olhando. São gestos pequenos, quase invisíveis: ouvir quem precisa desabafar, respeitar quem pensa diferente, escolher não ferir quando seria fácil atirar a pedra. Em um mundo competitivo, ser anjo não dá audiência, mas sustenta relações e nos humaniza.
Mas junto do anjo também habita o “monstro”. Ele não é assustador como nos filmes e costuma se esconder nos recônditos da alma. Percebê-lo não é tarefa fácil, mas ele sempre deixa rastros: a inveja quando o outro cresce, a raiva quando somos contrariados, o desejo de vencer mesmo que alguém precise perder demais por causa disso. Não há mal nenhum em reconhecer a existência desse monstro. O problema é fingir que ele não existe e acabar sendo dirigido por ele.
Há também o nosso “paredão”. Não é um lugar físico, mas momentos em que somos colocados diante de escolhas difíceis. Situações em que precisamos decidir se continuamos sendo quem somos ou se apenas desempenhamos papéis para agradar. O paredão da vida aparece quando respondemos a uma pergunta dura: somos fiéis à nossa consciência ou vivemos esperando a aprovação dos outros?
A vida também tem suas eliminações. É quando, mesmo respirando, a pessoa desiste de viver. Quem deixa os sonhos nas esquinas da existência e troca sentido por sobrevivência. A eliminação que vem do outro dói, mas a pior é a que parte de nós mesmos: quando deixamos de existir no sentido pleno e passamos a viver no modo automático, esperando o tempo passar e o dia em que seremos apenas um nome em uma lápide pintada de branco.
No reality cotidiano existe ainda o “termômetro social”. Antes, contávamos quantos amigos reais conquistávamos. Hoje, o que importa é o número de seguidores. Quanto mais “amigos” virtuais, mais populares parecemos ser. Não é raro medir o valor da própria vida pela opinião alheia: quantos gostam de mim? quantos me aprovam? quantos me rejeitam? Dormimos e acordamos como se estivéssemos em uma competição. E aqui está o problema: quem vive a partir do olhar do outro perde o contato com o próprio olhar.
O reality que realmente importa não acontece com plateias, luzes e votação, mas nas escolhas diárias. É quando decidimos se vamos alimentar o anjo ou o monstro, se enfrentamos o paredão com dignidade ou com máscaras, se vivemos com presença ou apenas tentamos agradar uma plateia que não está nem aí para nossas dores.
O maior prêmio da vida não é vencer batalhas externas, mas não se perder de si mesmo. Não é ser perfeito, mas verdadeiro. Não é agradar a todos, mas buscar o essencial. No fim, compreenderemos que o reality que mais nos desafia não é o que passa na TV, mas o que se revela dia após dia no teatro da nossa própria existência.

* Paulo Franklin é professor, advogado e psicanalista em Estância/SE.

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