O sangue do São Francisco

A Chesf ainda vai matar o velho Chico. Pelo menos é o que sugere a grande extensão de uma mancha negra no leito do rio. De acordo com o pronunciamento de órgãos de fiscalização, a abertura de duas comportas da hidrelétrica teria liberado organismos que hibernavam há mais de 30 anos. Uma vez liberados, eles teriam se proliferado dando origem a uma espécie de floração algal, provocando um desequilíbrio ecológico evidente.

Quando o rio sofre, os ribeirinhos gemem junto. O caso em questão atraiu a curiosidade pela evidência incontestável de um dano ecológico. Não é de agora, contudo, que a Chesf e as comunidades dependentes do São Francisco entram em rota de colisão. A constante diminuição da vazão do mais importante curso de água a percorrer a região nordeste, um expediente utilizado para compensar os efeitos da estiagem prolongada e evitar prejuízos à geração de energia elétrica, já vinha impedindo a subsistência de muitos.

Pior para todo mundo. A baixa vazão do São Francisco ressalta a importância econômica do chamado rio da integração nacional, em alusão ao grande número de estados localizados em diferentes regiões do País banhados pelo precioso veio de água. Com os reservatórios alimentados pelo Velho Chico em petição de miséria, a ameaça aos perímetros irrigados espalhados pelo Nordeste começa a ficar cada vez mais saliente. Comunidades de ribeirinhos, dependentes do São Francisco em tudo, além dos agricultores, avisam que o prejuízo não tarda.

O incidente agora é dos mais graves, não é todo dia que um rio sangra a olhos nus, a ponto de motivar a abertura de inquérito por parte do Ministério Público Federal. Os municípios que sofreram corte no fornecimento de água desde então, contudo, não são os únicos atingidos.

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