* Paulo F. T. Morais
Os primeiros bagos de chuva começaram a cair, logo que a procissão chegou ao largo da Usina Primavera. Fazia meses que não chovia, os canaviais estavam apendoados, rio e riachos apartados. Coronel Josafá andava jururu, chutando canelas. Dona Lindaura, a mulher, implorou-lhe resignação, paciência e permissão para sugerir ao padre Gonzaga, pároco do município, uma cerimônia religiosa de comprovada eficácia contra a zanga dos elementos: uma procissão no leito do rio seco.
Entraram na capela da Usina molhados e o padre, que só acreditava nos fatos fenomenais relatados na Bíblia e em outros Livros Santos, deparou-se com um cobrindo a própria pele, e convidou todos para rezar o terço, uma forma de agradecimento imediato a Nossa Senhora da Conceição pelo milagre bate-pronto, a resposta urgente a um pedido feito sem muita convicção da parte dele, mas testemunhando a fé delirante da gente sofrida. A igrejinha superlotou no primeiro instante, mas logo depois esvaziou, porque escolheram homenagear a Virgem com um estilo de gratidão mais fervoroso e eficiente: foram para casa receber o presente dos céus rezando enquanto enchiam potes, porrões, latas e todo o tipo de recipiente com a água que jorrava das bicas como corredeiras; mas o faziam entreolhando-se, desconfiados do tamanho do presente. Em pouco tempo o largo da Usina estava encharcado, e se a chuva continuasse caindo com tanta fúria e abundância haveria uma enchente de dimensão incalculável. Já se avistavam no rio animais de cabeças arribadas nadando para chegarem às margens, as quais, permanecendo o ímpeto e largueza fluviais, logo desapareceriam.
Diante do quadro trágico que se desenhava, Padre Gonzaga expôs ao professor Ribas um raciocínio perturbador: segundo o sacerdote, os insistentes pedidos de chuva, durante os últimos meses, culminando com a procissão, podem ter chegado lá nas alturas malconduzidos e por isso mal interpretados, visto que o clamor dos desesperados eleva-se com tom impositivo e impaciente, tanto que ele iria sugerir ao chanceler da Cúria, que mandasse divulgar em todas as missas a seguinte orientação: os fiéis se abstivessem de rogar por milagres através de procissões, manifestação piedosa de último recurso porque atraía soluções extravagantes, e somente se justificariam em casos extremos, como o estabelecimento da paz num cenário permanente de guerra. Para outras carências humanas, que se valessem do terço, da missa, de novenas e de promessas.
Felizmente, depois de muito estrago, o toró raivoso estancou, e, por sugestão de Dona Lindaura, outro terço foi puxado pelo próprio padre Gonzaga, como reconhecimento pela súplica atendida cessando a intempérie.
Embora a noite houvesse chegado com um céu pacífico, cheio de estrelas, o excesso das águas deixou muita gente acautelada, olhando para cima de vez em quando.
Padre Gonzaga jantou com os anfitriões, depois desceu a escadaria do sobrado para o que ele denominava "tomar minha lição" com o professor Ribas, que o esperava à porta. Era seu interlocutor predileto quando visitava a Usina Primavera.
– Padre Gonzaga, enquanto o senhor se pantagruelava com o Coronel e Dona Lindaura, me vi acabrunhado com o que espera a distinta senhora, depois de ter passado pelas aflições provocadas pela natureza. Segundo me contou ontem à noite Seu Aprígio, pai de Renatinho, o rapaz não quer mais ser padre. Temo pela reação de sua benfeitora desde que entrou no Seminário, e não tenho dúvida de que tal desistência doerá mais em sua alma do que ter rezado no leito de um rio seco, para logo em seguida assistir indefesa à queda de uma tromba d’água.
Cursando o último ano de Teologia, o filho de Aprígio seria ordenado no ano seguinte, com um festão que vinha sendo organizado por Dona Lindaura, enfrentando a ira do marido, pinoteando por causa dos gastos.
– Até eu estou abalado, professor. Achava que o Renatinho seria um grande sacerdote. Sempre ouvi falar nele como um dos melhores alunos do famoso Seminário Maior de Viamão. Sabe o motivo de sua desistência?
– O de quase todos que desistem: rabo de saia.
Desculpe, padre, minha intromissão em assunto sobre o qual sei pouco, mas observo muito. A Igreja comete um grande equívoco com essa história de celibato e, em consequência, voto de castidade. Homens saudáveis, como o senhor e o Renatinho, para não serem lançados ao espaço impulsionados pelo calor da libido têm que dormir sobre colchão de pregos e autoflagelarem-se com cilícios de arame farpado. A justificativa de que somente padres podem dedicar-se integralmente às tarefas de Deus, porque não têm família para cuidar, é discriminadora e anticristã. São incontáveis os casados que vivem vinte e quatro horas agindo como bom esposo, pai, filho, irmão, amigo, em suma, como cristãos exemplares! Deus não precisa mais do que isso.
– O professor deve reconhecer que o solteiro dispõe de mais tempo para dedicar-se a Ele, disse o padre timidamente e com o rosto afogueado.
– Tem tanto que ainda sobra para o diabo. Esse jovem nunca me enganou. Minha mãe alertava: cuidado com pessoas que nascem marcadas. São um perigo para elas e para os outros.
– Marcadas?! Renatinho era marcado?
– E como! Das marcas, tinha as mais aziagas, e por causa delas apostaria minha vida de que padre ele nunca seria: nasceu com uma pinta na palma de cada mão.
* Paulo F. T. Morais é jornalista e escritor


