O setor de serviços na economia mundial

* Saumíneo Nascimento
saumineon@gmail.com

De acordo com a Conferência das Nações Unidas sobre os Países Menos Desenvolvidos 2025, da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (UNCTAD), o setor de serviços está transformando as economias dos países menos desenvolvidos, mas o emprego e a produtividade estão ficando para trás, mesmo que os serviços estejam crescendo rapidamente nos países menos desenvolvidos.
Conforme a entidade internacional, o setor de serviços é hoje uma importante fonte de crescimento e emprego nos países menos desenvolvidos. Sabe-se que a maioria dos empregos no setor de serviços permanece de baixa produtividade e informal, limitando o crescimento da renda. Além disso, a fragilidade dos laços com a indústria, as exportações e a tecnologia prejudicam seu impacto no desenvolvimento. Some-se também que sem políticas específicas, o crescimento impulsionado pelos serviços corre o risco de reforçar as desigualdades existentes, ressaltando-se que competências, infraestrutura digital e cadeias de produção são fundamentais para gerar melhores empregos.
A sinalização do estudo é a de que a expansão de serviços se concentra em atividades de baixa produtividade que sustentam os meios de subsistência, mas não geram prosperidade em larga escala. Apesar do aumento da importância dos serviços, o crescimento médio da renda per capita nos países menos desenvolvidos permaneceu fraco em 2024.
A UNCTAD revela que o emprego continua a ser dominado pelo comércio informal, serviços pessoais e atividades de subsistência, enquanto os serviços de maior produtividade, que poderiam apoiar a industrialização e a competitividade, permanecem subdesenvolvidos. Então temos como principal desafio: emprego em larga escala e empregos de melhor qualidade.
Um fator preocupante revelado pela UNCTAD é o de que os países menos desenvolvidos enfrentam um desafio sem precedentes no mercado de trabalho. Até 2050, precisarão criar empregos para aproximadamente 13,2 milhões de novos entrantes no mercado de trabalho a cada ano. Portanto, a criação de empregos é uma restrição central às estratégias de desenvolvimento.
Embora o setor de serviços tenha absorvido grande parte dessa força de trabalho crescente, o aumento do emprego não se traduziu em maiores rendimentos. Infelizmente, a constatação é que a pobreza entre os trabalhadores continua generalizada, evidenciando a disparidade entre ter um emprego e ganhar o suficiente para viver com dignidade.
O relatório da UNCTAD enfatiza que os serviços só podem apoiar a transformação estrutural quando fazem parte de estratégias nacionais de desenvolvimento coerentes e operam num ambiente global favorável. Caso contrário, a expansão dos serviços corre o risco de exacerbar a marginalização em vez de a reduzir.
Um setor que é sempre bem posicionado no Brasil, o turismo, junto com os serviços digitais mostram potencial, mas com resultados insuficientes. Registre-se que o turismo representa cerca de um terço das exportações de serviços dos países menos desenvolvidos, sendo a principal categoria de exportação de serviços. No entanto, as elevadas receitas turísticas muitas vezes não se traduzem em criação significativa de empregos, aumento do valor agregado local ou transformação econômica. Isso reflete limitações de infraestrutura, vínculos frágeis e alta dependência de importações.
Em contrapartida, os serviços digitais estão entre os segmentos mais dinâmicos do comércio global. No entanto, os países menos desenvolvidos representam apenas 0,16% das exportações globais desses serviços, a menor participação já registrada. Além disso, continuam concentradas em um pequeno número de países, refletindo deficiências persistentes em habilidades, conectividade e capacidade tecnológica.
É importante refletirmos sobre as habilidades e a exclusão digital como limitações que são determinantes nos países menos desenvolvidos.
As competências digitais são um fator decisivo para o desenvolvimento de serviços mais produtivos. Nos países menos desenvolvidos, as mulheres têm 42% menos probabilidade do que os homens de usar a internet móvel, enquanto as populações rurais têm 50% menos probabilidade do que as populações urbanas.
Um exemplo interessante é o de Ruanda (pequeno país insular – sem saída para o mar e localizado na região dos Grandes Lagos da África Oriental, na África Central/Oriental.), que com o seu programa de Embaixadores Digitais de Ruanda, capacitou mais de 5.000 jovens para promover a alfabetização digital em comunidades rurais, enquanto o mHub do Malwai apoia negócios rurais liderados por mulheres. No entanto, essas iniciativas ainda são limitadas em relação à dimensão do desafio.
No entendimento da UNCTAD, precisamos de estratégias de serviço com mais realismo e melhores dados. Muitos países menos desenvolvidos estão adotando estratégias de “hub” em logística, transporte, tecnologia ou turismo para impulsionar o crescimento e as exportações. Embora essas estratégias possam melhorar a competitividade e a arrecadação de impostos, o relatório da UNCTAD alerta que elas frequentemente geram menos empregos diretos do que o previsto e podem aumentar os riscos relacionados ao endividamento, à capacidade ociosa e à fiscalização insuficiente.

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