OS POLÍTICOS COM OS PÉS NA LAMA

Políticos com os pés na lama aqui, neste caso, não é expressão pejorativa, se pejorativo seria caracterizar sem eufemismos ou tecnicidades, o que literalmente se chama ilicitude, bandalheira. Aqui neste caso, repetimos ¨políticos com os pés na lama¨ é mesmo afirmação literal definindo aqueles que têm disposição para andarem pelas ruas e vielas enlameadas das comunidades, refúgios dos pobres na sua maioria tangidos para bem longe, consequência de uma visão social que sempre os condenou à vida nos guetos.

São poucos os nossos políticos que não resumem suas atividades ao aconchego refrigerado dos gabinetes, ou limitam seus contatos de campanha aos comícios, às carreatas e passeatas, tendo apenas uma aproximação superficial e circunstancial com o chamado povão, com a massa formada por gente que usa aquele transporte público variando entre o ruim e o péssimo, que sobrevive à custa da Bolsa Família e não consegue marcar uma consulta nos postos de saúde, nem levar os filhos para uma escola eficiente. E os meninos morrem cedo, aumentando as nossas estatísticas sobre a violência. De gente assim, tão sofrida, o político querendo o voto a ela se dirige indiretamente através dos cabos eleitorais. Eles alardeiam o ¨estoque¨ de eleitores que possuem e usam-no como mercadoria disponível para a venda.

No ritual da vida pública não faz parte, necessariamente, o sacrificado capítulo do caminhar sobre a lama, mas, sem duvidas, quem dá prioridade a esse percurso adquire a arte de conviver e conhecer melhor os sentimentos do povo, essencial, para que se complete a construção das cabeças políticas.
Em Sergipe só três políticos acostumaram-se a por os pés na lama: Jackson Barreto, Maria do Carmo e Adelson Barreto. Seria essa a razão da longevidade vitoriosa de Maria e Jackson, e também, mais recentemente, dos sucessivos recordes eleitorais de Adelson?

Quem na última eleição livrou-se da Casa Grande que o recebia como parceiro, desde que fosse subalterno e obediente, como é o caso de Fábio Henrique, poderia ter a resposta pronta para essa pergunta. Ele sabe o que representa a descoberta da periferia, das caminhadas pela lama, para depois, sobre ela, fazer correr o asfalto. Nessas caminhadas Jackson era um experiente professor. Faz muito tempo ele tornou-se uma figura popular nos aglomerados pobres de Socorro, e, governador, juntou-se ao prefeito naquela jornada que resultou em sucessivas vitórias, onde se dizia que os adversários estavam instalados na Casa Grande, e por isso eram imbatíveis. O erro deles foi esse. Casas Grandes costumam ter o piso recoberto. O chão de poeira ou lama fica do lado de fora, e os da Casa Grande quando circulam pelo lamaçal, ao retornarem, limpam os pés na soleira, num ato de esquecimento daquele mundo feio.

Jackson, o carteiro, depois Prefeito de Aracaju, voltou às favelas e não trazia cartas, chegava com a boa notícia da cidadania passando a fazer parte das vidas dos moradores.
Maria, eleita senadora pela terceira vez, ainda não aprendeu a caminhar sobre os tapetes do Senado, mas não perdeu o hábito de ir ver, de bem perto, o que sucede nos lamaçais da periferia.
Adelson vai aonde a lama impede outros de lá chegarem, e leva alento aos que sofrem, doentes, e lhes facilita a ida aos hospitais, aos postos de saúde, aos médicos, ou os leva para a sua própria casa.
É assistencialismo?

É, sem dúvidas. Mas as pessoas que estavam doentes e reencontram a saúde valorizam a atenção providencial que recebem, são reconhecidas, tanto assim que retribuem votando.
Aos que pisaram ou ainda pisam na lama e lá se doutoraram na ciência de entender o povo, cabe, sendo eleitos, a responsabilidade de fazerem dos seus mandatos instrumentos eficientes de transformação social para que suma, de uma vez por todas, aquele fatalismo excludente que condenava o pobre a não sair da lama. E então, eles mesmos, com a consciência tranquila por terem contribuído para a ascensão social ficarão, também, livres do atoleiro.

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