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Os tortuosos caminhos de 2022


Publicado em 24 de novembro de 2021
Por Jornal Do Dia


* Jorge Gregory

Neste mês de novembro, a pandemia vem apresentando fortes sinais de desaceleração. A população, em sua imen
sa maioria, na contramão das campanhas antivacina e de negação da pandemia por parte de Bolsonaro, aderiu à imunização e às medidas sanitárias. Contribuíram, também, para o sucesso até aqui obtido, a existência de um Sistema Único de Saúde forte e consolidado, bem como dos laboratórios Fiocruz e Butantan. O significativo recuo no número de casos e de óbitos, no entanto, não representa uma evidência segura de que estejamos superando a crise sanitária em curto espaço de tempo. A maior certeza que temos quanto à doença é de que não sabemos por quanto tempo teremos que conviver com ela. Muito provavelmente, na melhor das hipóteses, ainda atravessaremos 2022 em estado de alerta, com o vírus determinando os rumos de nossas vidas.

Na economia, as perspectivas são piores ainda. Primeiro, porque enquanto a crise sanitária não for totalmente superada, continuará sendo uma barreira para a total retomada das atividades econômicas. Segundo, porque não há nenhuma sinalização de vigorosa retomada econômica mundial e isto, em um país dependente como o nosso, no mínimo nos manterá na estagnação, o que significa que se o desemprego não aumentar, também não baixará dos níveis atuais. Terceiro, porque a constante desvalorização do Real perante o Dólar, também consequência da dependência, é constante elemento de pressão inflacionária. Soma-se ainda a política de preços da Petrobrás – que coloca nas alturas os preços dos combustíveis – e a elevação do preço da energia como elementos aceleradores da elevação do custo de vida, em especial das populações mais pobres. Com a pressão inflacionária já começou a elevação dos juros que impactará violentamente também nas condições de vida da classe média. Ao contrário da crise sanitária que aponta pelo menos para uma certa estabilização, a tendência da crise econômica é de grande aprofundamento.

Na política, em que pesem as contundentes denúncias da CPI da Covid e a tragédia nacional que se aprofunda, a desarticulação do ato de 15 de novembro arrefeceu o movimento pelo impeachment. Ao mesmo tempo, se fortaleceu a aliança de Bolsonaro com o Centrão. Dessa forma, a denúncia de crime de responsabilidade apresentado pela CPI não será pautada por Lira. Mais, a desmobilização do dia 15, que deu uma esfriada nas manifestações de rua, demonstrou dificuldades na construção da unidade. Sem unidade, com o movimento de massas fragmentado, não se consegue acumular forças suficientes para pressionar o Congresso e sua presidência a abrir o processo de impedimento. Nesse cenário, vai se consolidando a tendência de que o enfrentamento ao fascismo bolsonarista se dará pela via eleitoral, prolongando a agonia do país pelo ano de 2022.
Para as eleições, no momento permanece a polarização entre extrema direita e esquerda, personificadas nas candidaturas de Bolsonaro e Lula. Ter que escolher entre os dois é o pior dos cenários para as elites, que se movimentam freneticamente para viabilizar uma terceira via. A bola da vez é o ex-juiz Sergio Moro, que abandonou o seu emprego nos Estados Unidos para retornar ao país e se filiar ao Podemos e já começa a dar entrevistas na condição de pré-candidato. Poucos acreditam que sua candidatura decole, pois o sujeito, como se diz na gíria popular, é muito ruim de serviço, mas com certeza serve ao propósito de dividir a base bolsonarista.

De 2013 a 2018, todas as forças das elites se concentraram em desconstruir Lula e desconstruir o PT. Imaginavam que anulando a principal liderança de esquerda e desmoralizando o maior partido deste campo, elegeriam um Geraldo Alckmin com uma mão nas costas. Percebendo este movimento, os militares entraram em campo decididos a ocupar o espaço vazio e passaram a construir o projeto de retorno ao poder com Bolsonaro. As elites passaram a estimular também o crescimento do fascista, pois assim como a esquerda, imaginavam que qualquer um que passasse para o segundo turno disputando com Bolsonaro venceria a eleição. Obviamente acreditavam que o PT estava fora de combate e que Haddad não passaria ao segundo turno. Mas passou e as elites tiveram que optar pelo fascista.

A eleição de Bolsonaro em 2018 decorreu, portanto, da conjugação de uma série de fatores, mas só aconteceu devido ao papel decisivo desempenhado pelos militares, articulando estes fatores de forma estratégica. Para consolidar sua aliança com o Centrão, no entanto, Bolsonaro praticamente descartou os militares, em especial retirando deles a liderança da articulação de sua tentativa de reeleição e entregando esta responsabilidade ao Centrão. Para as elites, fica cada vez mais evidente que não deu certo a tentativa de desconstrução do PT e fortalecer a polarização da esquerda com a extrema direita significa cair no mesmo erro. Para que uma candidatura de terceira via se viabilize, portanto, precisam desconstruir Bolsonaro inviabilizando sua ida ao segundo turno.

Para este fim, a filiação de Moro ao Podemos deu demonstrações de que pode ser eficiente. O ex-bolsonarista general Santos Cruz já se jogou de cabeça na campanha do ex-juiz e segundo vários veículos de imprensa, a plateia do ato de filiação estava repleta de militares. De qual o tamanho do racha nas casernas e clubes militares ainda não se tem dimensão, mas, ao que tudo indica, é grande. Ainda que a Rede Globo, em especial, continue investindo na promoção da candidatura, Sergio Moro é muito ruim de discurso e enfrenta enormes dificuldades para ampliar sua candidatura no meio político, de modo que não deve passar desse papel de desconstrução de Bolsonaro.

Para desconstruir Bolsonaro, no entanto, será necessário muito mais do que dividir os militares. Os caminhoneiros, a continuar a crise dos combustíveis, provavelmente venham a ser a próxima debandada. No entanto as milícias, as polícias estaduais, os evangélicos, o agronegócio e uma parcela grande do baixo empresariado permanecem fiéis ao genocida, pelo menos até o momento. Ao mesmo tempo em que as dificuldades de desconstrução se impõem, as elites se deparam com uma enorme dificuldade de construir uma candidatura de terceira via efetivamente competitiva. Em especial o PSDB se debate em uma disputa interna que provavelmente resultará em defecções.

Lula, por sua vez, faz mais uma jogada de mestre ao viajar para a Europa no exato momento em que Bolsonaro foi ao Oriente Médio. Enquanto o atual presidente se esmera em fazer motociata no Catar, visitar estádios de futebol e torrar recursos do cartão corporativo, expondo o país a mais uma ridicularização internacional, o ex-presidente é recebido por autoridades europeias com status de chefe de Estado. Lula mostra à sociedade brasileira, inclusive às elites, que pode restabelecer a credibilidade internacional do Brasil.

O líder petista, ao contrário de muitos de seus companheiros de partido, sabe que tem muito jogo pela frente e, como bom corintiano, também sabe que “o jogo só acaba quando termina”, segundo ensinava o saudoso Vicente Mateus. Não tem jogo ganho e não foi uma nem duas vezes que eleições que se consideravam definidas viraram em uma ou duas semanas na reta final. Um realinhamento inesperado das forças políticas pode mudar totalmente o cenário. Errar não é algo permitido neste imbricado jogo político que marcará o ano de 2022.

* Jorge Gregory, jornalista e professor universitário, trabalhou no Ministério da Educação (MEC).

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