Papéis que matam

* Paulo Fernando Teles Morais
                                       
Por volta das sete horas de 14 de junho de 1976, noite fria de chuva peneirada,  o industrial Jaime Borges, jovem  neurótico fóbico, tez de asceta, manias próprias de velho, apavorado começou a caminhar em direção da casa da namorada, Anete Mesquita.  O percurso de menos de quinhentos metros, transitado sem esforço por quem tinha pernas lépidas ou vagarosas, não durava dez minutos.  Jaime Borges, um dos donos da fábrica de tecidos de Maruim, fê-lo em mais de meia hora. Não caminhava, arrastava-se. Doía-lhe o corpo, principalmente os ombros e as costas, de tanto esfregar-se nas paredes; acocorava-se ao ouvir qualquer ruído; protegia-se no desalinhamento das casas ao perceber movimentos que julgava potencialmente letais.
Tinha fobia a sapatos e uvas-passas. Doze anos de terapia da cabeça não o haviam convencido da remota possibilidade de ratos  escolherem calçados como toca, menos  ainda a de maribondos cavalos-de-cão serem torrados e vendidos como passas. Usava chinelos de franciscano, abertos também no calcanhar, e engulhava quando via latas ou frascos do fruto metamorfoseado.   
O pai dele, Lino Borges, empresário inovador  da indústria têxtil baiana, era neto e filho de maruinenses. Decepcionado  com a leseira e inaptidão do herdeiro para negócios, principalmente os que dão dinheiro, entregou-lhe uma filial da empresa em Maruim. A iniciativa  visava a dois objetivos: desterrar o filho , varrê-lo da sua visão de homem rústico e sagaz, e homenagear os antepassados durante algum tempo. Era um empreendimento natimorto, de insucesso irremissível, mas durante o período em que os pés de barro do investimento o sustentassem  não estaria a mortificar-se medindo o tamanho da inutilidade da criatura que havia gerado.
Finalmente, quase afogado de suor e chuva, Jaime chegou ao destino.   
– Você fora de casa numa noite assim, o que houve?! Entre logo, afligiu-se Anete.
– Precisamos conversar, Netinha. Não aguento mais.
Os pais da moça, já deitados, ao escutarem a voz melíflua, enrolaram os pudores em lençóis, esticaram as cabeças pela porta semiaberta do quarto:
– Alguma coisa grave, Anete?, perguntou o pai.
– Ainda não sei.
– Qualquer coisa, me chame, filha, o som frouxo da voz assoprado pelos foles furados pelo enfisema.
– Está bem. –  Agora enxugue-se. Está tremendo, Jaiminho.
O namorado  batia os dentes, os olhos refletiam o desarranjo da cabeça, a inquietação da alma, a toalha nas  mãos  como se não soubesse por que fora parar ali. A namorada  sabia, deu-lhe função, e pedia que  contasse o que estava havendo.
O alfeninado  riquinho  engolfava-se nas palavras, as mãos finas vazadas pela luz da sala pousou-as sobre o ombro de Anete apertando-o, aproximou o rosto do dela, tartamudeou:
– Estou ameaçado de morte, Netinha. Veja o que tenho recebido nos últimos dias, e entregou-lhe magro cilindro de papéis enlaçado no meio  por um fitilho cor de rosa.
– Deixe-me ver.
Espalharam sobre a mesa da sala vinte e quatro folhas de caderno de espiral contendo  cada uma delas uma única letra desenhada.  C, P, G, V  eram as que mais se repetiam.
– Que é isso?
– Não sei, mas desconfio: ameaças de morte codificadas. O povo daqui não gosta de mim, e menos ainda depois que comecei a namorar  você,  mulher ideal de todos os homens. Pensa que  não sei?  Conto os que me toleram: Zaqueu da barbearia, a quem dou gorjetas maiores do que todos os cabelos que corta no mês; Chico Balaio, que vende roupas na feira, feitas com tecidos  da fábrica e sofre do mau hábito de não anotar o dia de pagamento e Juca Galeão, do Jogo do Bicho, cuja internação de um filho desenganado foi assumida por mim, durante os dois meses que ficou no hospital.  É o mais solto comigo, por isso perdoo  algumas das suas pilhérias pesadas; seria um tipo mais interessante se fosse menos irreverente.
– Mas as pessoas de bem o tratam com respeito. O que está acontecendo é pirraça de quem não tem o que fazer, os tais namorados platônicos, por exemplo. Desde quando vem recebendo as folhas?
– Há duas semanas. Enfiam-nas  debaixo da porta. Às vezes três, quatro. No ínício, apesar de aborrecido, não dei muita  importância. Desocupados ignorantes  agem assim, por isso não lhe contei, seria uma preocupação desnecessária.  Houve dias, então, em que não recebi  nada. Pensei que haviam desistido da chateação. Em seguida, recomeçaram, e  diariamente. Não tenho estrutura para lidar com mistérios. Concorda que devo ir a Salvador conversar com meu analista?
– Tome juízo, rapaz.  Vamos entregar esses papéis ao delegado, e ele que descubra quem está lhe metendo medo. E se não descobrir, descubro eu.
– Pelo Senhor dos Passos, não faça isso senão eu morro.
– Morre nada; deixe de pânico, e pare com essa tremedeira. Vamos examinar de novo folha por folha: letra A(2 folhas), B(2), G(2), M(1), P(3), V(2),U(1),T(1), C(7), E(1), L(1), J(1).
– Amanhã conversaremos com o delegado. A mim não amedrontam. Estão mangando da gente, querendo apavorar. Tem coragem de ir pra casa sozinho? Ou não se incomada de dormir aí no sofá?
– Não, obrigado. Não posso deixar de reagir, mesmo que me custe a vida. Vou chegando. Boa noite, Netinha.
E lá se foi como veio: agarrado às paredes, tiritava com os sons da noite, a mente descontrolada transformava vultos de cachorros sem dono em monstros gigantes. Felizmente a chuva havia passado.
Abriu a porta. Recuou pulando para a calçada quando viu um papel no chão. O pavor logo transformou-se em desassombro inconsciente. Apanhou a folha. Lá estava não outra solitária letra, mas o que sugeria sentença de morte: JAIME, O FIM DA BRINCADEIRA CHEGOU. VOCÊ TERÁ O QUE MERECE: UM 22 SÓ PRA VOCÊ  NO DIA 15. Fechou a porta sem passar a chave e abalou para  o quarto. Anete ia pegando no sono quando ouviu o estampido.
No outro dia deu 22, tigre no jogo do bicho.
A morte do fidalgo que confundia uva-passa com maribondo cavalo-de-cão e sapato com ninho de rato foi um acontecimento de repercussão interestadual. O Borges velho fechou a fábrica, e fez cinema patético com a morte do filho: chorou a seco. Anete, depois de convencer duas praticantes religiosas da Pia União das Filhas de Maria a acompanharem-na, fundou a seita Dízimo Pontual, no Raso da Catarina;  cooptou adeptos de outras seitas e religiões, e tem conta em vários bancos.
Anos mais tarde, lá pela década de 80, apareceu um livrinho de cordel contando a tragédia de Jaime Borges, narrada a um trovador de Caruaru por Galeão do Jogo do Bicho, coprotagonista da história. Confessa-se autor da remessa das folhas, que continham as iniciais dos bichos. Diz-se arrependido da travessura irresponsáve e fatal  – "uma doidice para mexer com aquele rapaz nervoso, mas de bom coração" -, trapaça que lhe custou o banimento da atividade, embora explique sua insensatez dizendo que,  se não fossem o descontrole mórbido, a fragilidade mental e física do grã-fino Jaiminho  ao definir  a frase como indiscutível  juramento de morte, teria sido um caso risível e de final edificante:  a última folha foi a forma que o bicheiro encontrou para mostrar gratidão a quem salvou seu filho.      
   
* Paulo Fernando Teles Morais é jornalista e escritor

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