Rian Santos
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A decisão de entrevistar Paulo Lobo provocou uma verdadeira rebelião na alcova do Poca Olho – blog de humor, comportamento e política alimentado nos anos de pandemia, com edição fogosa deste jornalista que vos escreve. Meses antes, a pretendida reunião talvez provocasse bocejos. Na ocasião, contudo, contra todas as aparências, uma simples conversa tinha nada de corriqueiro. Nada era normal.
A pandemia então em curso mudou quase tudo, com exceção dos ânimos exaltados no corpo a corpo do embate ideológico. Neste particular, note-se, a postura pública do ilustre entrevistado acompanhou a emergência de uma nova sensibilidade política – a mais radical.
Paulo Lobo engrossou o próprio pescoço e virou gente nas fileiras da esquerda sergipana. Para surpresa geral, no entanto, largou as bandeiras levantadas na juventude sem nenhuma cerimônia. Ele era um cantor e compositor dos mais bem quistos nas ruas de Ará. De uma hora pra outra, virou persona non grata.
“A maioria de meus amigos eram e ainda são de esquerda. Naquela época, durante o regime militar, você apoiava o movimento estudantil, ou então era um filho da puta. Não tinha opção. E eu andava com a turma toda”.
A turma a que ele se refere reunia figuras fundamentais na história Serigy.
“Eu fui amigo de Déda, Chico Buchinho, Clínio… O pessoal que militava em partidos de esquerda e ajudou a fundar o PT. Eu nunca me filiei, mas era solidário, tocava com essa galera, fiz até música com Déda. Andava naquele meio, sim”.
Quem ouvisse as palavras do cantor com atenção, talvez percebesse uma nota de nostalgia em sua voz. Mas essa vibração sentimental cessa por completo logo em seguida, com o relato de uma desilusão pontuada por acusações inflamadas. Para ele, a profissionalização política dos sonhadores redundou em um monte de coisa feia.
Mensalão, corrupção, palavrões de deixar qualquer um com o cabelo em pé! O desencanto com a política partidária – natural, dado o contexto supracitado, talvez inevitável -, coincidiu com uma nova percepção do mundo.
“Se tiver de assumir um lado, hoje estou mais à direita”.
Então a conversa empena. Para justificar a própria guinada, Paulo Lobo resvala em todo tipo de teoria da conspiração, apela para supostos complôs internacionais, repete teses sem pé nem cabeça formuladas no pântano de dados falsos e narrativas espetaculares da internet. A descriminalização das drogas, por exemplo, serviria aos interesses do narcotráfico, Folha de São Paulo, Maduro, a emergência de suposta Nova Ordem Mundial.
Logo ele! Paulo Lobo admitiu que já fez alguma fumaça nos anos de pouco juízo, não queria ser do contra, careta entre os descolados. Mas jurou de pés juntos que fumava apenas socialmente. Também confirmou ter votado em Bolsonaro na eleição passada. Nem por isso se considerava bolsonarista. O seu voto, ele explicou, foi pela salvação do Brasil.
O OUTONO DO LOBO
Paulo Lobo está velho. A alegria com que me abriu a sua casa é a mesma de um cachorro maltratado. Ele não tinha motivos para queixa, contudo. Embora a idade avançada e o isolamento por vezes lhe pesassem no corpo e na alma, estava ainda do lado dos vencedores. Assim, não demonstrava o mais breve arrependimento.
Na cabeça sexagenária de Paulo Lobo, o País foi colocado em boas mãos. Nos anos do petismo, ele disse, a roubalheira corria solta. Agora não.
“De um modo geral, eu acho o governo Bolsonaro bem melhor”.
No outono da vida, Paulo Lobo reclamava direito aos próprios fatos, respondia a qualquer controvérsia cuspindo a mais simplória opinião. Ele afirmava que as queimadas na Amazônia foram obra de ONG’s criminosas, um ato de sabotagem contra o governo federal. O óleo derramado no litoral do nordeste pertenceria a Maduro. E por aí foi. Tudo estaria provado, ao alcance de alguns links, para quem quiser acessar. As fontes em que buscava informação, no entanto passam ao largo de qualquer apuração.
Estamos ainda no início de uma longa conversa regada a cerveja mais ou menos gelada, com mais de duas horas de duração. Ao longo de todo esse tempo, paixões vieram à tona, com a violência da mais robusta convicção. O problema do Brasil não estaria na presidência da República. Bolsonaro, “macho pra caralho”, estaria lutando contra tudo e contra todos. O câncer estaria localizado no Congresso e no Supremo Tribunal Federal.
Cheio de razão, Paulo levantava a voz: “Que porra é essa?! Nego que gritava contra a ditadura militar, como era chamada na época, hoje acha normal um Alan (youtuber bolsonarista) ser preso? Uma Sara Winter ser presa por soltar fogos de artifício? Os antifas fazem muito mais, mas são endeusados pela Globo. Eu prefiro apoiar um cara que está sendo injustiçado, que botou o pé na porta e disse: aqui ninguém vai roubar!”.
O argumento tem a sua graça! No extremo de um semicírculo retórico, prestes a tocar a outra ponta, Paulo Lobo chegou a ponto de repetir o discurso persecutório das lideranças petistas. Em primeiro lugar, não escondeu a desconfiança com os veículos de imprensa tradicionais. Para se precaver das mentiras que sustentam o sistema, o mais prudente, segundo ele, seria buscar informação em canais dito alternativos, alinhados com o poder de turno, desprezar jornalistas, chafurdar na internet.
Neste bolo, entraram até os influencers com pendor espiritualista delirante. Um tal Luciano César trata de temas como a criação da moeda quântica. Outros resvalam no grotesco, relatam a existência de túneis nos confins da Amazônia onde crianças são exploradas sexualmente. Paulo falou ainda da produção de uma droga consumida pelas estrelas de Hollywood, fabricada com substância extraída da coluna cervical das mesmas crianças. E nem a falta de denúncia formal colocou uma pulga atrás da orelha do sujeito.
A tal altura, visitas ao banheiro começaram a se tornar frequentes. Mais algumas latinhas, pensei com meus botões, e o patriota confessaria estar à espera de um disco voador, como o da Xuxa, a redenção de nossa pobre humanidade.
O COVIL DO ARTISTA
A casa de Paulo Lobo tem nada de careta. Basta botar os pés na sala para o visitante ter certeza de estar no covil de um artista. Quadros de cores fortes chamam atenção nas paredes. Um grande carretel de madeira serve de mesa no centro da sala ampla. Ali, tudo é diferente. Num canto, há um pequeno palco.
Mas os quadros de traço moderno, o despojamento ostensivo do ambiente, o ar de buteco, boiam na superfície das aparências, dizem apenas das circunstâncias do músico. No banheiro, ele revela a própria alma.
Em termos estritamente musicais, justiça seja feita, Paulo Lobo jamais cuspiu no prato em que comeu. Votou em Bolsonaro e perdoou todos os crimes cometidos pela atual administração, num esforço constrangedor de boa vontade – Difícil se esquivar desse fato. Mas ainda se impressionava com os versos e acordes de Caetano Veloso. Ele declarou o seu amor com todas as letras, mas nem seria necessário. Um painel de dois metros com fotos do baiano, entre outros artistas da mesma linhagem, domina toda a parede em frente ao vaso sanitário.
Sinal dos tempos, a supervalorização de suas convicções políticas, em detrimento da produção musical, incomodava o artista.
“O meu trabalho criativo foi subjugado. As pessoas acham que eu sou um militante, mas eu sou porra nenhuma. No entanto, jamais compactuaria com roubalheira para agradar os colegas da esquerdalha”.
Paulo Lobo foi um menino tímido, ruim de bola. O violão lhe ajudou a crescer e aparecer, impressionar as meninas da rua onde morava. Daí para os festivais de música foi um pulo. A amizade com Jorge Lins e Luis Eduardo Oliva, o envolvimento com o Grupo Raízes de Teatro Infantil, datam dessa época. As primeiras decepções com o ofício de artista vieram logo depois.
“Em minha ingenuidade, eu achava que para o artista viver de seu trabalho bastava ser bom no que faz. Não é assim”.
Em 1986, Paulo lançou um disco em parceria com os amigos Neu Fontes e Lula Ribeiro. Cajueiro dos Papagaios, marco da discografia Serigy, fez relativo sucesso e alimentou o impulso de buscar horizontes profissionais mais largos. Paulo mudou para o Rio de Janeiro, mas quebrou a cara. Faltou malícia para se enturmar no sul maravilha.
Ruas de Ará veio mais tarde, em 1999, consolidando a faceta do cronista urbano que levaria o historiador Luiz Antonio Barreto a vaticinar: Trata-se do cantor de Aracaju, “por excelência”. Loboratório (2003), um provável último disco de Paulo Lobo, arredonda a obra. Depois, ele não gravou mais nada.
Os álbuns ficaram, no entanto. Três discos que ajudam a contar a história da música sergipana e, a seu modo, cristalizam a sensibilidade da época. Mas a produção musical de Paulo Lobo, a sua participação no cenário cultural da aldeia, foi muito mais ampla. Ele fez de tudo. Compôs e cantou, promoveu espetáculos, lançou revistas e jornais. Tristemente, contudo, a sua energia criativa acabou suplantada pelo desvio inesperado, já mencionado. A música que andava na boca da inteligência local caiu no esquecimento, atropelada pela paixão ideológica, tragada pelo vórtice das Fake News.
Segundo Paulo Lobo, muitos entre os seus amigos da “esquerdalha” ainda esperam que o bom filho à casa torne, por assim dizer. Não percebem que esse trem já deixou a estação faz tempo. Partiu e, cá pra nós, descarrilhou na primeira curva mais acentuada.
Eu entrevistei Paulo Lobo há dois anos, com o governo Bolsonaro em pleno vapor. Hoje, vésperas de uma nova eleição, pergunto-me: Algo terá mudado?

