A Polícia Federal entrou no caso do sumiço das peças que foram compradas pelo Hospital de Cirurgia para tentar reativar o seu equipamento de radioterapia. Ontem, através de uma nota oficial, a superintendência estadual do órgão confirmou que abriu um inquérito policial para investigar o extravio do chamado Conjunto de movimento do colimador, composto por motor, potenciômetro e engrenagens) e um Cabo #11 Winducable. Ambos os objetos são responsáveis pelo acionamento do Acelerador Linear, que está parado desde o mês de março, prejudicando os 65 pacientes do SUS que fazem tratamento contra o câncer no Cirurgia.
Segundo o comunicado da PF, a não localização da encomenda foi comunicada nesta segunda-feira pela direção regional dos Correios, que levantou a suspeita de ter havido furto das peças. Elas tinham sido despachadas no dia 4 de abril em uma agência da cidade de Lagoa Santa (MG), região de Belo Horizonte, e deveriam ser entregues em Aracaju até o dia 8 de abril. No entanto, de acordo com a Fundação Beneficente do Hospital de Cirurgia (FBHC), a entrega não aconteceu e a própria estatal admitiu a possibilidade de extravio da encomenda, avaliada em cerca de R$ 12 mil.
A PF não deu detalhes sobre o inquérito, mas confirmou que "a notícia recebida pela Corregedoria da Polícia Federal em Sergipe já foi encaminhada à Delegacia responsável para instauração de inquérito policial pelo crime de furto". A previsão é de que funcionários dos Correios sejam ouvidos formalmente pela polícia em Aracaju, Belo Horizonte e Lagoa Santa, a fim de tentar reconstituir o trajeto da encomenda.
É mais um desdobramento do impasse sobre as peças da radioterapia do Cirurgia, que já chegou aos tribunais. No começo desta semana, a FBHC processou os Correios na Justiça Federal de Sergipe (JFSE), pois havia vencido o prazo acordado, de três dias úteis, sem o recebimento do equipamento e as diversas tentativas de retirar o objeto foram infrutíferas. O juiz Edmilson Pimenta, da 3ª Vara Federal de Sergipe, deu um prazo de 24 horas para que os Correios achem e entreguem a peça ou assumam os custos da compra de outro colimador, que, no entanto, só é fabricado nos Estados Unidos. O magistrado julgou que a liminar é "imprescindível" e que "caso a peça não seja entregue, a indisponibilidade de uso do aparelho de radioterapia inflige risco de vida aos pacientes oncológicos usuários do SUS".
Os Correios ainda recorreram da decisão ao Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), em Recife (PE), mas o desembargador responsável pediu outras informações sobre a situação, antes de julgar o processo. A assessoria da empresa informa que o recurso foi motivado pelo prazo de 24 horas, considerado muito curto para a compra de uma peça que só é encontrada nos Estados Unidos. A repartição, no entanto, garante que está trabalhando para ressarcir o Hospital, mesmo que seja necessária a compra de outra peça.
O presidente da FBHC, Gilberto dos Santos, diz que aguarda o cumprimento da decisão, mas já estuda com a sua equipe o que deve fazer para atender os pacientes, enquanto a nova peça da radioterapia não chega. "Estamos concentrando nossas forças para que essa peça seja encontrada o mais rápido possível. A nossa principal preocupação não é o prejuízo financeiro, mas sim as vidas desses 65 pacientes, que estão sob a nossa responsabilidade e estão tendo o seu tratamento totalmente prejudicado pela falta do nosso equipamento", lamentou. Estima-se que outros 300 pacientes com câncer estejam atualmente na fila de espera pelo tratamento com radioterapia. A maioria é encaminhada ao Hospital de Urgência de Sergipe (Huse), onde fica o outro acelerador linear em funcionamento no estado. Outros pacientes já foram encaminhados para Arapiraca (AL), com os custos bancados pelo governo do estado.


