Piauítinga um rio na UTI

* Carlos Modesto
Estive recentemente na cidade de Itajuípe/Bahia, cidade que frequentava bastante devido aos trabalhos de cinema que nela efetuava. Havia chovido bastante no mês de dezembro do ano passado e a pedido do diretor do filme fui fazer algumas cenas em diversos locais do rio Almada. Quantas lembranças me levaram este rio ao da minha cidade da Estância, o Piauítinga.
Eu já havia me banhado no Almada em 1961 do século passado, quando trabalhava no Laboratório Phymatosan e viajava para esta empresa por quase todo o Brasil, e quando chegava em qualquer cidade que havia rio eu ia logo nadar. O rio Almada naquele pretérito era possuído de águas límpidas e serviam delas quase toda sua população para beber e cozinhar.
Conversando com um amigo médico sobre poluição comentei o fato de nós humanos, de toda criação, sermos o mais feroz predador da Terra. Em poucos anos poluímos rios, mares, terra e ar como nenhum outro ser vivo do planeta. O lixo é outro problema que já estamos enfrentando em toda a parte do mundo. A nossa mãe Terra está virando um verdadeiro lixão produzido pelo homem.
O rio Piauítinga de tão grata memória, já cantada em versos pelos seus filhos poetas, atualmente, depósito de esgoto, agoniza, poluído e já sem força para empurrar suas águas que se encolhem cada vez mais e que em algumas partes se mantém inerte ante os objetos jogados dentro dele pela nossa população. Sinto tristeza o vendo sem vida, sem aquele murmurar tão encantador direcionado aos nossos ouvidos quando perto dele chegávamos. A frescura aconchegante dos encontros de domingo onde em seus diversos espaços: Poço do Carro, da Pedra, das Meninas, a Bacia, sem esquecermos o Escorrego, paraísos aquáticos, provedores de alegria onde nos banhávamos.
Existia naturalmente seu lado negativo em certos trechos de suas águas, as que se mantinham paradas, com certeza havia o perigo de sermos infiltrados pelas cercárias do schistosoma Mansoni e assim sofrermos da esquistossomose, doença esta que matou muita gente e marcou a vida em sofrimentos gastrointestinais de vários estancianos em tratamentos empíricos (na época) da doença, radicados em outras partes do País.
Na verdade, não podemos encontrar a poluição só no rio Piauítinga, mas em quase todos os rios do mundo. O progresso da humanidade está sendo tributado pela aniquilação da nossa Natureza. O homem tem que se cientificar que ele e a Natureza são semelhantes, o arrasamento de um será a eliminação do outro. O homem para a sua sobrevivência depende de quase tudo que o planeta tem em diversidade, a arrasadura da flora e fauna já se encontra frente a frente. Temos que nos preocuparmos com o futuro da nossa geração, só a educação e o bom senso poderão frear o holocausto que está por vir.
O nosso querido rio Piauítinga pede socorro, ele está na UTI, sabemos disso e só nós podemos salvá-lo, mas como? Através da conscientização de não jogarmos nele o lixo que produzimos, lutarmos com unhas e dentes numa política direcionada para a implantação de esgotos, liberar as águas dos riachos que são presas em diversas fazendas por onde sua corrente passa, temos que plantar árvores e proibir a retirada das areias das suas águas.
A água pode não faltar num país como o nosso, mas o líquido potável poderá se tornar mais cara do que o ouro. Uma água pura é uma fonte permanente de saúde e dela depende a nossa sobrevivência no planeta Terra.
* Carlos Modesto é cineasta, memorialista, escritor, autor dos livros: Sombras da Saudade, A História dos Cinemas da Cidade de Estância; Contos da Escuridão, Judas na Praça; Um Duble de Médico no Mundo do Cinema; Oscar Santana, 60 anos fazeno Fita;  Carlos Modesto Recorda: Com Mota, a Bahia Era Uma Festa. 
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