PM investiga tortura de motoboy

Gabriel Damásio

O Comando da Polícia Militar afastou três praças da corporação e ordenou a abertura de um inquérito para apurar agressões cometidas durante a abordagem a um motoboy, em frente a uma lanchonete no Conjunto Orlando Dantas (zona sul de Aracaju). O episódio aconteceu na noite do último dia 21 de dezembro, mas ganhou repercussão na noite desta quarta-feira (29), após a divulgação de um vídeo nas redes sociais, com imagens da câmera de segurança do estabelecimento.
As imagens mostram o momento em que os três PMs chegam ao local, após serem provavelmente acionados pela dona de uma loja vizinha. Eles vão direto ao motoboy, que carrega um pacote e está de saída para fazer uma entrega. Em seguida, um dos soldados manda o rapaz colocar o pacote no chão e se virar de costas para iniciar uma revista. Durante o procedimento, o policial chuta as pernas do entregador e o outro, ao também chutar, dá dois socos na costela dele.
A revista se seguiu por cerca de um minuto, tempo em que o soldado responsável pela abordagem dá quatro socos no órgão genital do motoboy, que se contorce de dor e tenta se agachar. O segundo PM, que já tinha se postado à frente dele, dá-lhe um tapa no rosto e, em seguida, o primeiro se afasta, pega o telefone celular e tira uma foto dele. Nada ilícito é encontrado e o entregador é liberado, mas ao montar na moto, leva um último tapa no rosto, que faz o capacete cair.
A gravação que circulou é editada e, além de realçar os momentos das agressões, mostra o momento em que a mulher que chamou a polícia é abraçada por um dos soldados e parece colocar algo no bolso dele. Uma reportagem publicada na quinta-feira pelo site Fan F1 afirmou que esta mulher é proprietária de uma açaiteria vizinha ao local de trabalho do motoboy abordado, e que o motivo para a presença da polícia estaria em uma série de desentendimentos entre ela e o dono do estabelecimento vizinho, que é concorrente dela.
Antes da divulgação das imagens, o motoboy formalizou denúncia na Corregedoria da PM, onde compareceu acompanhado por um advogado. A assessoria da corporação confirmou ao JORNAL DO DIA que os soldados envolvidos foram afastados do serviço de rua e prestaram depoimento formal nesta quinta-feira, 30. Em nota, a corporação afirma que, “como sempre é feito, os fatos já estão sendo devidamente e rigorosamente apurados, não só quanto às imagens, mas também, em relação às denúncias feitas na edição do vídeo”.
A nota do Comando diz ainda que a diretriz determinada pelo governo do estado e pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) “é no sentido de que o policiamento ostensivo realizado pela Polícia Militar de Sergipe seja firme contra o crime e seus autores, nunca contra trabalhadores, que devem e são, em regra, protegidos pelas ações da Corporação”. Ressaltou também que “fatos como os mostrados no vídeo não refletem a marca de atuação dos milhares de policiais militares que estão nas ruas 24 horas por dia, sete dias por semana”.
Reação – A gravação repercutiu também na Assembleia Legislativa (Alese). O deputado estadual Iran Barbosa (PT), que integra a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da casa, divulgou uma nota repudiando o fato e cobrando uma ação imediata do Comando da PM, da SSP e do governador Belivaldo Chagas (PSD).
Para ele, houve uma “sessão de humilhação pública e de violência física na abordagem injustificada, dado que o trabalhador agredido não esboçou qualquer reação”. Iran frisa que o episódio “mancha a imagem da valorosa Corporação da Policial Militar do nosso estado, que é formada, em sua maior parte, por policiais militares ciosos do seu papel constitucional de bem servir à sociedade”, e “mostra que é preciso separar as maçãs podres do cesto”.

Compartilhe esta notícia