Kátia Azevedo
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O despejo de famílias que ocupavam o Conjunto Nossa Senhora do Carmo, no povoado Aguada, no município de Carmópolis, a 47 km de Aracaju, acabou em confronto, prisões e feridos na manhã ontem.
Acuadas com o forte efetivo policial, as famílias jogaram pedras e bombas caseiras contra o forte aparato militar numa tentativa de impedir a entrada dos policiais no conjunto. De acordo com manifestantes, cerca de 400 policiais armados com bombas de efeito moral e balas de borracha entraram no local no momento que as famílias comemoravam uma possível negociação com a polícia, sendo surpreendidas pela ação. Além da Tropa de Choque, a operação contou com o Grupo Tático Aéreo, que sobrevoou o local.
Na confusão, pessoas foram presas e algumas passaram mal. De acordo com os manifestantes, cerca de 10 pessoas foram presas por crime de resistência e desacato à autoridade, além de 30 detenções realizadas para averiguações. Elas foram levadas à delegacia local, ouvidas e assinaram Termo de Ocorrência Circunstanciado (TOC) e depois liberadas para responder o processo judicial em liberdade. Todos foram acompanhados pela Defensoria Pública que viabilizou as liberações.
Feridos – Outras onze pessoas ficaram feridas. Uma foi atingida com bala de borracha na barriga. Uma gestante passou mal e foi socorrida. Outras pessoas também desmaiaram por causa do efeito de gás lacrimogênio. "Quando começaram a jogar as bombas eu e minha mulher saímos correndo com a nossa filha de cinco meses. A fumaça entrou nas casas e ficamos sufocados. Do lado de fora, os policiais e pessoas da prefeitura davam risadas vendo o nosso desespero. Foi um cenário de guerra. Diante de tudo isso, nossa luta vai continuar", relata um dos moradores do conjunto.
A polícia entrou no conjunto por volta das 9h45. A reintegração foi concluída no início da tarde, quando as famílias fizeram a retirada de móveis e objetos pessoais das casas. Elas disseram que resistiram ao despejo por não terem para onde ir.
A desocupação foi acompanhada por 11 oficiais de justiça, Defensoria Pública, Conselho Tutelar e Movimento Terra Livre, que passou a assumir recentemente as negociações entre as famílias e a prefeitura, no lugar do Movimento Organizado dos Trabalhadores Urbanos (Motu), apontado pelos ocupantes do conjunto como um dos causadores do problema ao acordar com a gestão municipal a concessão das casas para apenas 100 famílias, prejudicando as demais.
Para impedir a chegada da polícia, foram montadas barricadas nos acessos ao conjunto com queima de árvores e objetos. O objetivo foi retardar a desocupação para dialogar com o judiciário e tentar reverter a decisão.
A operação também contou com seis viaturas do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e do Corpo de Bombeiros, que apagou o fogo na pista de acesso ao povoado. Chaveiros foram levados até o local para facilitar a entrada nas 450 casas. As famílias estavam no local desde o mês de julho. Uma decisão judicial determinou que as famílias deixassem as casas.
Sem diálogo – Lideranças do Movimento Terra Livre e Defensoria Pública intermediaram a situação tentando uma negociação pacífica, mas sem sucesso. Flaviano Cardoso, do Movimento Terra Livre, lamentou a ação repressiva da policia e a postura da Prefeitura de Carmópolis de não ter tentado um diálogo com as famílias. "Foi uma ação truculenta, covarde e abusiva da policia", definiu Flaviano.
Ele relata que as famílias chegaram a conversar e aplaudir os policiais do comando da operação que retornaram promovendo uma ação violenta e sem chance de defesa. Flaviano também criticou a prefeitura de Carmópolis ao mencionar que a mesma optou pela opressão. "A resistência foi a única opção dada pelo poder público e pela prefeita Esmeralda Cruz. O que aconteceu em Carmópolis é um crime. Este povo está aqui há mais de cinco meses. Não existe um critério estabelecido para a entrega dessas casas. A maior legalidade que tem que ser cumprida é o direito básico à moradia. Não podemos tratar o povo pobre trabalhador mais com polícia e repressão, mas sim com politica pública, moradia e diálogo e isso a prefeitura de Carmópolis não fez", disse.
Representantes do Movimento Terra Livre também criticam a ação truculenta da polícia ao lembrar que as bombas foram jogadas no conjunto mesmo com a presença de crianças e idosos e que muitas passaram mal. Lideranças do movimento Militantes do Terra Livre também foram presos.
O capitão da Polícia Militar, Jorge Cirilo, que participou da operação, contestou a informação e afirmou que a policia não tinha intenção de usar a força contra os ocupantes da área. "Fomos recebidos a pedradas", rebateu. No inicio da operação, a policia informou que iria cumprir da lei e quem resistisse seria autuado e preso em flagrante.
Depois do despejo, as famílias foram encaminhadas pela prefeitura para o Parque Ecológico Mangabeira e a Praça de Eventos onde estão alojadas temporariamente. O clima de apreensão continua.
Ação civil pública – A defensoria pública estuda a possibilidade de entrar com ação civil publica contra a prefeitura de Carmópolis, pois ao contrário do que informaram a imprensa as pessoas retiradas não têm para onde ir. Segundo a defensoria, os abrigos que eles se referem são galpões somente para guardar os moveis e não abrigar as pessoas.


