Milton Alves Júnior
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No dia em que se comemorou o Dia Nacional da Consciência Negra, dezenas de grupos quilombolas do Estado de Sergipe se deslocaram até Aracaju para participar de uma vasta programação alusiva à data. Reunidos desde cedo na Comunidade Maloca, segundo quilombo urbano mais antigo do Brasil, os visitantes participaram de rodas de representações folclóricas e realizaram debates sobre a permanente discriminação contra os negros no país. Paralelo aos eventos nos centros quilombolas, instituições educacionais das redes pública e particular também realizaram ações de reflexão e aglomeraram centenas de estudantes para ecoar músicas e jogar Capoeira.
Para o professor Paulo Roberto Nascimento, o dia 20 de novembro é um marco histórico no Brasil, onde diversas tribos se reúnem para enaltecer a importância do negro na Nação e os devidos valores que a etnia deve receber. Apesar da programação festiva, o docente lamentou a ausência de políticas públicas que contribuam para inibir os negros de preconceitos muitas vezes com danos irreparáveis. Depois de 125 anos da abolição do trabalho escravo no Brasil, muitos cidadãos ainda utilizam termos linguísticos não permitidos pela Constituição Brasileira e acabam sendo processados judicialmente, e até detidos. Só esse ano, mais de 500 brasileiros já foram acionados na justiça por algum tipo de preconceito racial.
"Infelizmente só com essas punições os negros passam a ser menos perseguidos por aqueles que se acham brancos. Ainda acho que as fiscalizações são poucas e justamente por isso que a cada dia que passa somos informados dessas aberrações. Quero conhecer um negro que nunca foi vítima dessa covardia", lamentou. No início dessa semana o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou uma nota técnica sobre um estudo que analisou dados sobre a violência contra negros no Brasil. Segundo o resultado da pesquisa, enquanto a taxa de homicídios de negros no Brasil é de 36 mortes por 100 mil negros, a mesma medida para os ‘não negros’ é de 15,2.
De acordo com a também professora Henilma Vitória, ao longo dos últimos anos as pesquisas estão apresentando dados contraditórios e que na maioria dos casos não devem ser sinônimo de coesão. "Se a gente for estudar o resultado dessas pesquisas vamos perceber que a grande maioria dos brasileiros se diz negro. Essa autodeclaração acaba saindo pelo ralo quando sabemos que os negros são as maiores vítimas de preconceito e possuem salário bem menor que aquele que ‘não é negro’ e desenvolve a mesma função na empresa", disse. Durante uma ação educacional realizada na manhã de ontem no centro da capital sergipana, os manifestantes solicitavam uma participação mais ativa por parte da sociedade geral contra o preconceito.
Segundo o representante quilombola, Rivaldo dos Santos, esse tipo de atividade contribui para que os brasileiros passem a respeitar mais a característica racial de cada povo. "Não é porque sou negro que vou criticar o branco. Não é assim que tem que ser. Se a gente conseguir formar uma corrente de fiscalização independente do apoio governamental, tenho plena convicção que essa onda de bulling vai acabar aos poucos, mas precisamos dessa união popular", afirmou. Entre os municípios representados em Aracaju estava: Ilha das Flores, Laranjeiras, Nossa Senhora do Socorro, Itabaiana, Itaporanga D’ajuda, Tomar do Geru, São Domingos e São Miguel do Aleixo.
Caminhada – Pelo quinto ano consecutivo foi realizado pelas principais ruas do Bairro Getúlio Vargas uma caminhada. Presente no evento, a deputada estadual Conceição Vieira (PT) enalteceu a importância das comunidades quilombolas se manterem unidas em prol de um progresso unificado para os negros. "Tanto aqui em Aracaju, como também em Brasília, o nosso mandato está totalmente de portas abertas para as comunidades mais carentes e grupos específicos de raça e opção sexual. Entendemos que a realização dessa marcha é fundamental para o fortalecimento dos nossos pleitos. Digo isso porque também sou negra e sonho com o fim do preconceito", disse.
Atos alusivos ao Dia Nacional da Consciência Negra também foram realizados nos municípios de Laranjeiras, Japaratuba, São Cristóvão, Cumbe, Carmópolis e em alguns bairros da zona Norte e Zona de Expansão de Aracaju.


