Gabriel Damásio
Mesmo sem o apoio formal das entida-des de classe da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros, as quais decidiram adiar uma manifestação pública sobre os assassinatos de militares ocorridos em Sergipe, um protesto com cerca de 200 policiais militares foi realizado ontem à tarde nas ruas do centro de Aracaju. O ato foi organizado pela Unica (União da Categoria Associada), entidade formada por dissidentes das Associações Militares Unidas.
Vestindo camisas pretas, os manifestantes fizeram um funeral simbólico, representando a ‘morte da segurança pública do Estado’. Um caixão foi colocado em frente à Assembleia Legislativa (Alese), na Praça Fausto Cardoso, e de lá foi levado em cortejo pela Rua Itabaianinha e pelo Calçadão da João Pessoa, até voltar à porta da Assembleia. Atrás do caixão, outros policiais carregavam oito cruzes de madeira com os nomes dos policiais assassinados ao longo deste ano, além de uma pequena faixa preta com a seguinte frase: "Recuar? Só se for pra pegar impulso!".
Pelo caminho, os policiais rezaram várias vezes a oração do Pai-Nosso e pararam para fazer minutos de silêncio em frente ao Palácio Fausto Cardoso, antiga sede da Assembleia, e diante da sede do Tribunal de Justiça de Sergipe (TJSE). Já no calçadão, que estava movimentado, as pessoas chegaram a confundir o protesto com um enterro ou com uma manifestação de grevistas, chegando a fazer silêncio quando eram informadas sobre o motivo do protesto. Houve ainda a adesão de candidatos excedentes do último concurso público da Polícia Militar, os quais cobraram novas convocações para preencher o efetivo da corporação.
O protesto de ontem foi motivado pelos assassinatos do sargento Valdomiro dos Passos Filho, 43 anos, morto nesta sexta-feira, e do soldado reformado Luciano dos Santos Menezes, 49, no sábado, que se somaram a outros sete casos de policiais civis e militares assassinados de forma violenta em Sergipe. "Essa manifestação nasceu da indignação com as mortes dos nossos irmãos policiais militares. Isso gerou uma insatisfação enorme dos nossos sócios, e nós como diretoria temos que apoiar esta iniciativa. Queremos abrir um canal de diálogo e esse é um dos momentos para mostrarmos a nossa insatisfação para a sociedade", disse o presidente da Unica, Wilianês dos Santos, o "Will Guerreiro".
Os policiais alegam que falta eficácia no modelo atual de segurança pública e em outras políticas públicas correlatas. As falhas estariam principalmente na falta de garantias jurídicas que permitam uma ação mais incisiva da polícia contra os criminosos. "O que vemos hoje é uma fragilidade muito grande do Estado, que tem recuado diante da criminalidade. E não os policiais, que têm trocado tiros, feito prisões, feito a prevenção e repressão. Temos verdadeiros heróis trabalhando nas ruas", afirma Will.
Como exemplo, ele cita uma proposta da entidade para que a Procuradoria Geral do Estado (PGE) defenda policiais e agentes públicos em processos onde sua atuação profissional seja questionada, como em casos de abuso de autoridade. "A gente precisa pagar do nosso próprio bolso pra nos defender", reclama o representante da Única, relacionando esta falta de garantias legais à "interpretação que muitas pessoas dão aos princípios dos direitos humanos, e têm desvirtuado totalmente estes princípios". Os PMs também reivindicaram aumento do efetivo e melhoria nas condições de trabalho.


