Gabriel Damásio
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O confronto entre a Polícia Militar e manifestantes contrários ao aumento da tarifa de ônibus em Aracaju, durante protesto ocorrido no início da noite de sexta-feira, resultou na autuação em flagrante de três dos sete manifestantes que foram levados para a Delegacia Plantonista (Centro). A informação foi confirmada ontem de manhã, no balanço diário da unidade. Dois dos detidos foram indiciados por "incitação ao crime" e vão responder em liberdade a um Termo de Ocorrência Circunstanciado (Toc). O terceiro manifestante, o paulista Tiago Perez Trentini, 26 anos, foi preso por "atentado contra a segurança de serviço público", crime previsto no artigo 265 do Código Penal com pena entre um e cinco anos de prisão.
Por conta desta pena, os autos do processo foram enviados para o Tribunal de Justiça de Sergipe (TJSE), onde um juiz plantonista decidirá se mantém a prisão ou arbitrará um pagamento de fiança. Até o fechamento desta edição, Trentini permanecia preso na Plantonista. O "Movimento Não Pago", organizador do protesto, informou que seus advogados entraram no início da tarde com um pedido de habeas-corpus para libertar o manifestante. Pela manhã, o grupo fez uma reunião para decidir os próximos atos. O JORNAL DO DIA apurou que eles vão denunciar um grupo de militares da Companhia de Radiopatrulha (CPRp), a quem acusam de iniciar a confusão e de até passar informações falsas sobre o episódio.
No boletim de ocorrência, os soldados relataram que alguns manifestantes cobriram os rostos com toucas e camisetas, e bloquearam as avenidas colocando fogo em pneus. Segundo os PMs, alguns jovens chegaram a dar socos em carros que tentavam furar o bloqueio e seguraram nas laterais de uma viatura policial "tentando danificar o patrimônio publico", sendo que que um deles chegou a subir no capô de um carro gritando: "Chamem o Choque, que estamos esperando". Tiago Trentini foi citado no boletim como o manifestante que "arrancou a mangueira das mãos do bombeiro de maneira agressiva, impedindo que o mesmo apagasse o incêndio, cujas as chamas já subiam ate a rede elétrica", no momento em que soldados do Corpo de Bombeiros tentaram desobstruir a via.
O coordenador de comunicação do "Não Pago", Flávio Marcel, disse ao JORNAL DO DIA que os soldados da RP "mentiram no depoimento" e "inventaram fatos para criminalizar o movimento social". "Eles disseram no depoimento outras coisas que até foram desconsideradas pela Polícia Civil durante o flagrante, incluindo um rapaz que colocou a mão na mangueira para impedir que os outros fossem molhados. Na verdade, a polícia de forma abusiva, chegando até a jogar água nos nossos companheiros para dispersar a via. Temos imagens que mostram isso", assegura ele. Outros estudantes alegam que foram agredidos com empurrões e golpes de cassetete.
Flávio apontou que os integrantes da Radiopatrulha não usavam nenhuma identificação e prenderam quatro manifestantes, no momento em que eles se preparavam para desocupar a esquina das avenidas Hermes Fontes e Barão de Maruim, na zona central de Aracaju. "Nós fizemos uma manifestação pacífica e estávamos fazendo uma reunião antes de liberar o tráfego, mas o pessoal estava começando a se dispersar. Nesse momento, alguns policiais que estavam sem identificação chegaram do nada, pegaram quatro companheiros nossos, algemaram eles e os empurraram para o fundo de uma viatura, levando-os para a Plantonista", relatou.
Ainda conforme Marcel, os manifestantes seguiram em cortejo para a porta da delegacia, na Rua Laranjeiras, onde aguardaram a liberação dos detidos. Os PMs seguiram junto e a área foi isolada pelo Batalhão de Polícia de Choque (BPChq). "Lá, nos escolhemos três estudantes para falar com o delegado e acompanhar a liberação dos colegas. Eles foram falar primeiro com o Choque e disseram que só podíamos tratar disso com o superior. Quando eles foram falar com o coronel Iunes [Maurício Iunes, comandante-geral da PM], que estava lá, os mesmos policiais da RP apareceram de novo e prenderam os três, da mesma forma abusiva e truculenta. Todo o tumulto foi causado por esses PMs da Radiopatrulha", acusou Flávio, acrescentando que "Iunes não se manifestou em nenhum momento sobre a atitude deles e a não-identificação".
PM rebate – O chefe do setor de relações-públicas da PM, major Paulo César Paiva, rebateu duramente as acusações do "Não Pago" e afirmou que "se houve abuso, ele partiu dos próprios manifestantes". Segundo o oficial, os estudantes detidos – apontados como líderes do protesto – receberam voz de prisão porque eles não obedeceram a ordem de desocupar a avenida e encerrar o ato. "O bloqueio da via já estava causando muitos transtornos para a população, com grandes congestionamentos e até com riscos. Como não logramos êxito em desobstruir a via, demos voz de prisão aos líderes. Eles resistiram à prisão e foi necessário o uso da força previsto na lei, mas sem nenhuma consequência grave", disse Paiva, garantindo que a PM não cometeu qualquer abuso.
O major destacou ainda que os policiais militares acompanharam toda a manifestação dos estudantes, com outras unidades, a exemplo de um grupo de controle de distúrbios do BPChq, armados com bombas de efeito moral, que estava há 50 metros de distância dos jovens. "Eles estavam preparados para intervir, mas a ação deles não foi necessária. A prisão acabou sendo feita pela RP", argumentou, pontuando que a PM "foi muito passiva em todas as manifestações do ‘Não Pago’ realizadas durante toda a semana", também com bloqueio de avenidas.
Paiva garantiu que a ação da corporação foi necessária porque os manifestantes "feriram a legislação". "O asfalto da avenida é um patrimônio público e fica danificado quando colocam fogo nos pneus. Os estudantes tem todo o direito de se manifestar contra o aumento da passagem de ônibus. Eles podem protestar, mas desde que não prejudiquem o direito dos outros e não firam a legislação. Se o repúdio deles chegou ao conhecimento da sociedade, até porque a imprensa estava lá cobrindo o protesto, por que fechar as avenidas principais da cidade, em pleno horário de pico? Qual a necessidade de queimar pneus, oferecendo risco até de explodir veículos e danificar o patrimônio público?", criticou o major.


