* Cleverton Silva
Ao refletir e vivenciar a política, qualquer cidadã e cidadão se vê diante de dualidades como continuidade ou mudança, moderação ou radicalismo, conservadorismo ou liberalismo (uma parcela dos brasileiros conseguiu a proeza de se dizer “conservador nos costumes, liberal na economia”, vendendo-se como pizzas de dois sabores), socialismo ou capitalismo, de esquerda ou de direita (outra parcela da classe política também conseguiu a proeza de se dizer “de centro”, “independente”, “neutra”, “outsider” ou “pra frente”, para se dizer uma “terceira via”), passado ou futuro. Desta inconstância, conclui-se apenas que o único consenso possível é o de que toda sociedade humana seja “uma metamorfose ambulante”, resultante de processos e ações, e também suas próprias contradições.
Em sua longa trajetória política, Luís Inácio Lula da Silva carrega muito dessas dualidades e enfrenta a sua anunciada última campanha eleitoral para encerrar um ciclo político que talvez marque o fim da Nova República, que foi inaugurada com os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte (ANC), onde o mesmo Lula atuou na condição de Deputado eleito pelo Partido dos Trabalhadores (PT) para transformar os anseios da classe trabalhadora daquele final dos anos 1980 no texto da Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 5 de outubro de 1988. Em janeiro de 2003 e de 2007, Lula tomaria posse como Presidente da República para os seus dois mandatos.
Em maio de 2009, o então Deputado Federal Jackson Barreto (PMDB/SE) protocolou na Câmara Federal a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 367/2009, assinada por mais 183 deputados(as), propondo uma segunda reeleição para Presidente(a), Governadores(as) e Prefeitos(as). Lula não se interessou. Queria descansar num refúgio na Bahia, junto com sua esposa de então, D. Marisa Letícia, após eleger a 1ª Presidenta da República do Brasil, Dilma Rousseff. Porém, o PSDB, o juiz “ladrão” Sérgio Moro e o Procurador Deltan Dallagnol incendiaram o país inventando a “Operação Lava-Jato”, prendendo o ex-Presidente num processo ilegal tocado por um juízo e um tribunal de exceção, pressionando e levando D. Marisa ao AVC que tirou sua vida.
Em podcasts e outros pronunciamentos públicos, Lula anunciou que “provaria sua inocência” (importante perceber que Moro e Dallagnol não provaram sua culpa), e que não se deixaria ficar preso a uma tornozeleira eletrônica. Pagou com 580 dias de prisão arbitrária, autorizada pelo jeitinho (judicial) brasileiro que permitiu a “prisão em 2ª instância”. Lula disse também que sairia da prisão para “voltar à Presidência da República”. E assim aconteceu em outubro de 2022, como sabemos. Agora em 2026 Lula busca o inédito 4º mandato presidencial, aos 80 anos de vida, exibindo a vitalidade, a lucidez e a disposição que falta ao Presidente dos Estados Unidos, o TRUMPalhão Donald.
Para o pretendido 4º mandato, Lula aponta para um projeto de Brasil soberano, integrante do bloco econômico emergente integrado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul (os BRICS), complementado em 2023 e 2024 por Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. A fila de países em desenvolvimento interessados em integrar os BRICS segue crescendo. No bloco, cujo Novo Banco de Desenvolvimento (NBD, NDB ou Banco dos BRICS) é presidido pela ex-Presidenta Dilma Rousseff (indicada por Lula em 2023, reconduzida por Putin em 2025), o Brasil lidera a iniciativa de implementar um sistema alternativo de pagamentos no mundo baseado no PIX, livre das sanções (punições), dos juros abusivos dos cartões de crédito e do dólar dos EUA.
Lula também oferece ao mundo, e à sociedade brasileira, um futuro de diálogo e fim das guerras, como o mesmo relembrou no dia 22 de setembro, ao abrir com seu discurso a 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, onde lembrou que “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, amplificando o alcance da frase que intitula o livro de Paulo Nogueira Batista Jr, ex-Presidente do Banco dos BRICS. Além de pregar um freio ao massacre de Israel contra o povo Palestino, os conflitos entre Rússia e Ucrânia; e o conflito provocado pelos EUA contra o Irã, que joga o preço do barril de petróleo a mais de US$ 100 (100 dólares), acarretando na suspensão do fornecimento e na alta dos preços dos combustíveis, que em Sergipe já estavam caros desde que Bolsonaro vendeu a refinaria Lanulpho Alves, na Bahia, ao Fundo Árabe, após muitos salamaleques que envolviam presentes como jóias.
O preço da gasolina não subiu aos R$ 9 dos tempos de Bolsonaro porque Lula deixou de abastecer os mercados internacionais, fazendo a reserva interna, aumentando a oferta e estabilizando os preços, compensando-os ainda com o subsídio de R$ 0,40 por litro de gasolina e de R$ 1 sobre o diesel, que a Petrobras repassa às refinarias, ajudando toda a cadeia de abastecimento a não inflacionar (aumentar) junto, a exemplo dos alimentos e outros itens do setor de varejo. Sob Lula, a mesma Petrobras nos trouxe de volta a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados (FAFEN), que em janeiro de 2026 voltou a produzir ureia e amônia para abastecer o agro, deixando no passado a experiência desastrosa da “Unigel”, empresa que segundo Bolsonaro e o Senador Laercio Oliveira salvaria Sergipe, mas não deu conta sequer da administração da planta industrial localizada em Laranjeiras.
Por falar em Petrobras em Sergipe, adversários em 2022 na disputa pelo Governo do Estado, o Governador Fábio Mitidieri (PSD/SE) e o Senador Rogério Carvalho (PT/SE) superaram as diferenças a pedido de Lula, e uniram forças para garantir que finalmente a estatal brasileira do petróleo implemente o Sergipe Águas Profundas (SEAP), no valor a ser investido de mais R$ 72 bilhões, e outros investimentos no Estado. O SEAP é o compromisso de Lula e da Petrobras com o desenvolvimento de Sergipe, os empregos de qualidade para os jovens, o financiamento de projetos socioambientais e culturais no nosso Estado, a exemplo do Encontro Cultural de Laranjeiras e o Festival de Artes de São Cristóvão (FASC).
Os esforços de Rogério Carvalho e Mitidieri se traduziram nos últimos meses na frente ampla que resultou no “Time de Lula” em Sergipe, mesmo que este arranjo carregue fortes contradições na coligação, como a insatisfação da ala sindical do PT, em especial do Magistério com esta aliança com o Governador, justamente incomodados com a inabilidade do Governador em dialogar com os servidores, e incomodados também com notórios antipetistas do PP, União, MDB e até alguns do PSD que estão subindo no mesmo palanque, dando trégua às críticas a Lula e ao PT, para, reeleitos, voltarem a dificultar os interesses da sociedade brasileira e a vida do Presidente, que busca aprovar PECs e leis populares como o fim da escala 6×1 e a proibição das BETs junto às bancadas do Congresso, repleto de inimigos do povo.
Com exceção do Deputado João Daniel e o Senador Rogério, únicos petistas sergipanos do Time de Lula no Congresso Nacional a buscarem a reeleição e únicos a votarem com o Governo Lula em mais de 95% das pautas do Presidente, é importante lembrar que maioria da bancada sergipana escorregou em questões como ficar a favor da “PEC da Blindagem”, o “PL da devastação ambiental”, por manter o veto de Bolsonaro às fake news como crime eleitoral (essa família só sobrevive na política contando com a mentira e a impunidade). Infelizmente, de 2019 a 2026, esses representantes da bancada sergipana que integraram ou ainda seguem no PL, Republicanos, PP, União Brasil e até do PSD urdiram o plano para esvaziar a função da Presidência da República como ordenadora das despesas, para que o Congresso tomasse conta desta função do Executivo por meio das emendas, muitas dessas sem transparência pública.
Porém, apesar de tudo, após derrotar Bolsonaro e o seu golpe tentado da diplomação até a primeira semana de 2023, voltar ao poder, reorganizar o Estado Brasileiro, regularizar o CADÚnico (cadastro de benefícios sociais), pagar o calote de Bolsonaro nos Precatórios do Judiciário e pagar o ICMS tomado pelo mesmo dos Governadores de Estado para reduzir o preço da gasolina na tentativa de vencer o 2º turno em 2022, o Governo Lula não se sustentou apenas no passado para apresentar muitos resultados positivos. Sergipe vivenciou ainda outras transformações nas políticas públicas de 2023 pra cá.
Na educação, jovens sergipanos(as) e brasileiros(as) contam com o programa Pé-de-Meia para terem um Norte e uma poupança ao concluírem o ensino médio, com a ampliação da Rede Federal de Ensino, em Sergipe marcada pela inauguração do Campus do IFS em Poço Redondo e a retomada das obras de ampliação do Campus Aracaju, destravada com muito esforço em 2023 pelo ex-Ministro, hoje candidato Márcio Macedo, após os 4 anos de deterioração da obra durante o desgoverno Bolsonaro, prevista para ser entregue em 2027.
Na saúde, além da liberação dos recursos do SUS para que o Governo de Sergipe entregasse o Hospital do Câncer de Sergipe Governador Marcelo Déda em junho de 2026, 49 das 90 unidades de ambulâncias do SAMU que rodam em Sergipe também foram cedidas pelo SUS de 2024 para 2025. Com a rede Farmácia Popular, sergipanos(as) e brasileiros(as) de baixa renda se cadastram em farmácias credenciadas para retirarem gratuitamente absorventes, anticoncepcionais e medicamentos para asma, diabetes, colesterol, parkinson, glaucoma, hipertensão, osteoporose e rinite.
Ainda no cuidado com as mulheres, além da dignidade menstrual com o fornecimento de absorventes, o Governo Federal entregou em Aracaju também em junho a 13ª Casa da Mulher Brasileira, para acolher mulheres vítimas de violência, contando com assistência psicossocial, acompanhamento e suporte jurídico, salvaguarda e segurança num só ambiente.
Na cultura, o edital Funarte Retomada 2023 permitiu que os artistas Elias Santos e Everton transformassem em belas artes o que eram 150m² de concreto e cal no bairro Cirurgia (na rua da Praça Saturnino de Brito, onde fica o Centro de Criatividade, revitalizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc; e nos muros da Escola 11 de Agosto), com a galeria a céu aberto homenageando a estudiosa Beatriz Nascimento, o Mestre Saci, o Candomblé, outras personalidades e expressões locais através do Projeto Caixa D’água, Cor e Memória, também acessível por audiodescrição por QR Code e alto relevo do molde de alguns dos murais.
Na infraestrutura, ao vir a Sergipe em maio, Lula anunciou junto com o Governador a estruturação do veículo leve sobre trilhos (VLT), para integrar Aracaju, São Cristóvão, Laranjeiras e Nossa Senhora do Socorro num circuito turístico; a nova ponte da Coroa do Meio à Atalaia Nova e a adutora do leite para beneficiar o segmento em Nossa Senhora da Glória e região.
Bastante criticada pela demora de décadas, a duplicação e revitalização da BR-101 no trecho sergipano avança, mesmo aquém da velocidade desejada. Em contraste, a ponte que ligará Neópolis/SE a Penedo/AL já atingia 50% de execução em abril de 2026, realizada no contexto do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Brevemente o rico patrimônio arquitetônico do município alagoano e um dos mais animados destinos carnavalescos de Sergipe experimentarão um fluxo integrado de visitantes, partilhando benefícios mútuos no que se refere aos segmentos de comércio, serviços e turismo.
Diante de tantas conquistas exemplificadas só no território sergipano, reeleger Lula é ato que representa a dualidade entre um futuro de desenvolvimento e estabilidade política até 2030, ao mesmo tempo em que oportuniza a Lula que finalmente realize o sonho coletivo da classe trabalhadora que representou durante a Constituinte do final dos anos 1980, conquistando junto ao Senado a redução da carga de trabalho para 40 horas semanais, viabilizando a escala 5×2, com mais um dia de folga para o celetista sem redução de salário em benefício desta geração e das futuras.
Porém, o desafio posto para quem deseja estas conquistas é que em cada Estado os Times de Lula elejam Deputados(as) Federais, Estaduais, Senadores(as) e Governadores(as) alinhados(as) a esta e outras agendas voltadas ao desenvolvimento e um bom futuro para o país, sem dar espaço para o bolsonarismo alucinado, obcecado pelo “impeachment do Xandão”, que brada contra inimigos imaginários gerados por delírios ideológicos, que reza para pneu, pendura-se em para-brisas de caminhão, bebe detergente, espalha mentiras na internet e quer impor a própria fé e crença aos outros.
Se pessoas de extrema-direita lerem este texto, sintomaticamente reclamarão do veículo e exigirão a ilusória “imparcialidade” que não exigem dos veículos “conservadores” de seus agrados, espalhadores de mentiras e discursos de ódio. Estas mesmas pessoas tentam normalizar a chegada da extrema-direita ao poder como uma justa e desejada alternância, contando com o nosso esquecimento de que, ao serem derrotados em 2022, organizaram atentado a bombas no dia da diplomação de Lula, e tentaram o golpe em 8 de janeiro de 2023, para tirar Lula do cargo que conquistou.
Estes, sim, são contraditórios como sempre, e querem derrubar a “Nova República” para a substituir por coisa pior: uma espécie de ditadura na forma de um “Estado teocrático” fanatizado e sem direitos.
* Cleverton Silva, bacharel em Direito pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)

