Preso homem que tomava dinheiro dos mais pobres por casas populares

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

A Polícia Civil desbaratou um esquema de ‘venda’ irregular de casas populares entregues recentemente pelo Governo do Estado. Segundo as investigações do Departamento de Defraudações e Combate à Pirataria (DDCP), ele era operado exclusivamente pelo ex-funcionário público Aparecido Vilela Santos, preso no começo da manhã de ontem em sua residência, no Conjunto Jardim, em Nossa Senhora do Socorro (Grande Aracaju). O acusado vinha sendo investigado há cerca de dois meses, pela suspeita de negociar os imóveis do Conjunto Habitacional José Eduardo Dutra, no Porto Dantas (zona norte da capital).
Os policiais cumpriram um mandado de prisão preventiva decretado pela 9ª Vara Criminal de Aracaju, a pedido da delegada responsável pelo caso, Rosana Freitas. Aparecido foi denunciado por dezenas de pessoas que teriam sido induzidas por ele a pagar quantias entre R$ 5 mil e R$ 20 mil, em troca da entrega das residências construídas no conjunto. De acordo com Rosana, ele convencia as pessoas a pagar as quantias, afirmando que conseguiria a posse das casas com uma suposta influência junto aos governos federal e estadual.
"Ele alegava que esse dinheiro era para um projeto particular de casas populares que ele estaria tentando viabilizar junto ao governo federal, e que usava esse dinheiro para ir à Brasília, elaborar as plantas e os projetos… e que não se tratava de oferta de casas do governo, mas de casas construídas por ele mesmo. Só que isso não foi confirmado pelas vítimas em momento nenhum, pois elas reforçaram sempre a ideia de que ele ofertava casas do conjunto habitacional", relatou a delegada. Outra tática, segundo a polícia, era levar os interessados ao próprio Conjunto José Eduardo Dutra, apresentando as casas construídas pelo Governo como se fossem propriedade dele.
Somente na DDCP, 20 vítimas prestaram boletim de ocorrência, mas a estimativa da polícia é de que o total de golpes atribuídos ao suspeito seja maior que 100, pois suspeita-se que os crimes vinham acontecendo desde 2014. A maioria das vítimas é de pessoas humildes, com poucos recursos, que relataram ter feito dívidas e sacrifícios pessoais para pagar a ‘entrada’, em nome do sonho da casa própria. "Nós tivemos relatos de pessoas que chegaram fizeram empréstimos bancários para poder pagar essa quantia solicitada pelo Aparecido", confirma Rosana, ao contar que algumas vítimas até choraram e ficaram nervosas ao prestar depoimento na delegacia. Nestes depoimentos, foram apresentadas provas, como recibos e documentos que atestavam os pagamentos pelas casas.
A polícia apurou também que Aparecido tentou impedir que as vítimas o denunciassem, na medida em que elas iam reclamando da demora na entrega das casas ou percebendo que os imóveis supostamente ‘comprados’ já tinham sido entregues pelo Governo a outras famílias de baixa renda que já estavam cadastradas pela Secretaria Estadual de Infraestrutura (Seinfra). "Quando as vítimas falavam em procurar a polícia, Aparecido fazia ameaças. Primeiro dizia que, se elas fizessem isso, não veriam mais o dinheiro e não receberiam a casa. Depois ele dizia que nem adiantava prestar queixa, porque, segundo ele, ‘o caso não iria dar em nada’. Ficou claro que ele estava intimidando as vítimas e havia risco real de que o Aparecido fugisse do Estado", disse Rosana, citando os motivos que levaram à decretação da prisão preventiva.
A delegada do DDCP esclareceu ainda que Aparecido não ocupa cargos públicos e nem tem qualquer ligação com nenhum membro do Governo do Estado. O acusado já foi servidor comissionado da Prefeitura de Socorro, mas foi afastado do cargo há alguns anos. De acordo com Rosana, as apurações da polícia descartaram o envolvimento de políticos com o golpe. "Ele usava as alegações de que tinha influência, comparecia sempre aos eventos políticos, mas não houve nenhuma referência nominal a políticos por parte das vítimas. Essa pessoa a que Aparecido se referia como suposto irmão do governador não existe. O que existe é um primo do governador, que foi ouvido por durante as investigações e comprovou que todas as casas foram entregues muito antes das denúncias serem feitas", esclareceu.  
Aparecido foi indiciado por estelionato e está detido em uma delegacia da capital, aguardando transferência para um presídio. Agora, além de buscar novas vítimas do golpe, a polícia busca descobrir o que foi feito com o dinheiro pago por elas. Não está descartado um pedido para que a Justiça sequestre os bens do acusado, para que as vítimas sejam ressarcidas.

Compartilhe esta notícia