Presos cavam túnel em cadeia de Glória e 31 conseguem fugir

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

Mais uma fuga de presos foi registrada no Presídio Regional Senador Leite Neto (Preslen), em Nossa Senhora da Glória (Sertão). Durante a madrugada de ontem, 31 presos escaparam por um túnel que foi escavado de uma área dos fundos da enfermaria do presídio até um terreno baldio na área externa. A fuga aconteceu por volta das 4h e foi percebida depois que os cinco agentes que estavam de plantão foram alertados pelos intensos latidos dos cães de guarda. Ainda não se sabe de quem partiu o planejamento e a execução do plano de fuga, que envolveu detentos de várias alas da unidade.
De acordo com as informações levantadas no local, o buraco por onde os presos escaparam tem aproximadamente seis metros de extensão e quase 80 centímetros de diâmetro. Dentro dele, foi encontrada uma fiação improvisada que permitia a instalação de lâmpadas e ventiladores dentro do cubículo. A suspeita é de que os presos tenham levado poucos dias para escavar o túnel. "Como se trata de uma unidade muito antiga, o presídio tem espaços grandes, eles [os detentos] retiravam a parede e a terra, colocando-a posteriormente na horta e no campo de futebol. A estrutura física da unidade é muito precarizada e fragilizada, o que facilitou bastante para que os presos conseguissem fugir através do túnel", disse o presidente do Sindicato dos Agentes Penitenciários de Sergipe (Sindipen), Luciano Nery.
Ainda conforme o sindicalista, outra falha que pode ter contribuído para a fuga está na falta de efetivo: além de ter apenas cinco detentos de plantão naquela madrugada, todas as oito guaritas de vigilância do Preslen estavam desativadas, isto é, sem nenhum agente que as ocupasse. Ao todo, o presídio estava com cerca de 420 detentos, apesar de ter capacidade para apenas 197. "Infelizmente, foram vários fatores que culminaram nesta fuga. Sobretudo devido ao descaso e à falta de investimentos no sistema prisional. Pela total fragilidade em que esse presídio se encontra, com guaritas desativadas, sem efetivo e sem equipamentos de segurança, com certeza essa fuga poderia ser muito maior. Graças a Deus que não evadiram mais", reclama Nery.
Durante toda a manhã de ontem, equipes do Instituto de Criminalística, da Polícia Civil e do Departamento Estadual do Sistema Penitenciário (Desipe) estiveram no presídio e examinaram o túnel, que passou por uma perícia. Objetos usados possivelmente para escavar o buraco não foram encontrados. A Secretaria Estadual de Justiça e Cidadania (Sejuc) deverá abrir uma sindicância para apurar as circunstâncias da fuga. O órgão também enviou equipes de manutenção para executar reparos emergenciais na estrutura do Preslen.
Enquanto isso, várias unidades da Polícia Militar, a exemplo do 4º Batalhão (4º BPM) e da Companhia Especializada em Operações Policiais em Área de Caatinga (Ceopac),fizeram operações de busca pelos foragidos em toda a cidade de Glória, povoados e municípios vizinhos. Ainda na manhã de ontem, um dos foragidos, identificado como Brendoow Markarlister Alves Souza, foi recapturado próximo à entrada da cidade de Feira Nova.Até o fechamento desta edição, os outros detentos não foram encontrados, apesar das buscas. A polícia suspeita que os presos ainda estejam escondidos na própria região.
"É comum, nessas fugas, que alguns permaneçam na localidade, esperando o ‘ambiente esfriar’ e que a polícia recue, para que eles possam buscar os destinos que eles realmente procuram. Por isso, a gente tenta massificar as buscas nas adjacências e até nos arredores do presídio", relata o comandante do 4º BPM, major Fábio Fonseca Rollemberg, ao admitir um clima de tensão entre os moradores de Glória desde a confirmação da fuga em massa. "O pessoal sempre fica tenso, porque a qualquer momento pode ser algum deles tentar adentra nalguma residência ou subtrair um veículo. Nós orientamos a todos que, qualquer movimentação estranha, avisem à delegacia ou à companhia da área", alertou.
O Presídio Leite Neto existe desde 1985 e fica em uma área urbana de Glória, ao lado do Hospital Regional João Alves Filho. Em 25 de agosto, a unidade foi interditada por ordem do juiz Hélio de Figueiredo Mesquita, da Vara de Execuções Criminais, que proibiu a entrada de novos presos por causa da superlotação e das falhas na segurança. Outras duas fugas em massas já aconteceram desde o ano passado e, em uma delas, no dia 21 de agosto de 2015, três agentes prisionais foram baleados por detentos que se armaram antes da fuga e um deles, Antônio Nascimento Nogueira, morreu antes de chegar ao hospital.

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