Quando o pobre vira rico, o simples fica caro

* Gregório José

 

Rapaaaiz, é o fim da rosca! Aliás, rosca agora é “donut artesanal”, recheado com creme de cumaru. Tá entendendo? A simplicidade fugiu para as montanhas e deixou um bilhete dizendo: “Fui embora antes que me vendessem por 200 reais”. É como diria o Analista de Bagé: “Tchê, a vida é como a cuia do chimarrão: simples e redonda. Mas inventaram de botar glitter nela e agora só rico pode tomar!”
Começamos pela tragédia do dimdim. Sim, aquele sorvetinho da infância, feito no saquinho de plástico, custava cinquenta centavos e era a única alegria num verão de 40 graus. Hoje virou “gelato artesanal”, feito com água de coco tailandês e essência de baunilha de Madagascar. O preço? Uma facada gourmet: 8 reais por unidade! Se comer dois, é capaz de a maquininha do cartão pedir exame de crédito.
E o brigadeiro? Ah, o brigadeiro, rei das festas infantis e das formaturas. Antigamente, a gente comia uma dúzia enquanto o aniversariante soprava as velas. Agora é “trufa belga”. O preço de UM é o mesmo de DUZENTOS brigadeiros das antigas. E o pior: ninguém mais dá “lembrancinha” na saída, porque até a lembrança virou “kit premium de degustação”.
E as Havaianas? As famosas sandálias do povão, aquelas que não deformavam nem fediam (exceto no pé do seu primo que jogava futebol descalço), agora custam uma fortuna. Viraram statement fashion. Se aparecer na rua com um modelo de R$ 10, o segurança do shopping te convida a sair. Já com uma de R$ 120 (personalizada com cristais Swarovski), você ganha um olhar de aprovação e talvez até um café gourmet (lembraremos do café já já).
Agora a bicicleta! A boa e velha magrela, companheira de tantas idas e vindas pro trabalho, hoje atende pelo nome de “bike”, e a humilde barra-forte foi substituída por modelos de fibra de carbono. Preço? Ah, só R$ 10 mil, usada. Nova, você vende o carro pra dar entrada. Aí vai um playboy no domingo de manhã, pedala duas quadras, tira foto pra postar no Instagram com a hashtag #vidaativa e volta pra casa de SUV.
E a cachaça? Que saudade daquela cachaça da esquina, no boteco do Seu Zé. Agora é premium, vendida em garrafas desenhadas por artistas renomados, com selo de “exportação”. Pior: o gringo paga 21 euros pela “aguardente” e ainda acha exótico. Aqui, o preço de uma garrafa paga uma rodada inteira de antigamente.
A feijoada? Era prato de resistência do pobre, feito com o que sobrava do porco. Hoje, virou evento de gala. É feijoada com dress code. O abadá, que era a roupa do pagodeiro, virou passe VIP. Você paga, se veste e vai postar selfie: #FeijucaDoLuxo. Cadê o mundo que vivia de caldinho grátis na esquina?
E, finalmente, o café. Ah, o cafezinho da tia! Aquele cheiro de carinho no coador de pano… Agora é “blend exclusivo” e custa o preço de um voo da sua casa até a rodoviária. Se pedir um café e um pão de queijo na mesma conta, você financia em três vezes no cartão.
Como bem disse Mujica, o problema do pobre não é a pobreza, é o outro pobre que subiu na vida e acha que é rico. É a gourmetização da simplicidade, minha gente! O que antes era barato e fácil de achar, agora é grife. Quer um conselho? Antes que o ar também vire “premium”, corre pra encher os pulmões de simplicidade! Tchê, o que é bom mesmo não precisa de etiqueta, só de bom humor. E disso, nós, pobres ou quase ricos, ainda entendemos.

 

* Gregório José, Jornalista/Radialista/Filósofo

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