A nova orquestração do consórcio de coincidências entre governo e jornalismo de aluguel tenta jogar a eleição em Sergipe, mais uma vez, para a disputa no Tapetão dos tribunais
* Luciano Correia
A política sergipana, como a cantiga da perua, vai de mal a pior. Na semana passada inventaram um rato passeando no mercado de carnes de Itabaiana para tentar atingir a candidatura de Valmir de Francisquinho ao governo do estado. Essa foi a maquinação da semana, somando-se a tantas que têm feito de nossa política uma atividade menor, farta em ataques pessoais e na produção de fake news em escala industrial. Aposta-se no vazio de ideias e na orquestração da mentira como munição para um exército de radialistas e emissoras escancaradamente desonestos, pagos com dinheiro grosso.
Além desse simulacro de jornalismo corrompido, uma outra tropa de choque composta de portais, blogs e perfis nas redes completam esse serviço de desconstrução das oposições em Sergipe. Os alvos são, além do candidato Valmir, a gestão da prefeitura de Aracaju e membros da oposição política estadual. Nunca se viu jogo tão baixo. O único interessado nessa guerra suja, evidentemente, são os atuais ocupantes do governo. Mas faltam elementos para provar essa fantástica coincidência em letras de uma imprensa que não sejam as desse pseudojornalismo de aluguel. Eis aí uma pauta que confirmaria a grandeza e importância de instituições como a Justiça e o ministério público estadual.
Antes que os ratos de rádio e das redes digitais encerrassem a inventada novela dos ratos serranos, explodem com outra fake news, dessa vez sobre uma suposta cassação da candidatura de Valmir de Francisquinho. A nova orquestração do consórcio de coincidências entre governo e jornalismo de aluguel tenta jogar a eleição em Sergipe, mais uma vez, para a disputa no Tapetão dos tribunais. Essa é a democracia do tal consórcio desnudando despudoramente mais uma coincidência: foi a ação deletéria dos dois lados que anulou a eleição estadual de 2022 e fez do terceiro colocado nas urnas o novo mandatário do Estado. Mas são só coincidências.
A candidatura de Francisquinho deixa em polvorosa os governistas que, sem muita fé nas regras do jogo democrático e em votos nas urnas, apostam em levar novamente para o Tapetão a mais formidável ferramenta da democracia: uma eleição livre, transparente e feita dentro das regras. Aí já não se tratam de coincidências. A tentativa de melar as regras e cuspir na democracia partiu de um governista de quatro costados, o secretário estadual de Cultura, Valadares Filho. Pedigree para esse serviço não lhe falta, afinal, foi uma das vozes mais entusiasmadas no golpe perpetrado pelo Congresso para derrubar a presidente Dilma Roussef sob uma acusação absolutamente improcedente.
De posse de uma peça jurídica que há dias dormitava em suas gavetas, o culto e produtivo secretário estadual de Cultura aguardou o último dia para a entrada de recursos para apresentar uma argumentação frágil e desconexa, talvez espelhando a confusão mental de seus criadores, pedindo a cassação de Valmir pela violação da norma eleitoral por uma infração que jamais existiu. Se no campo da cultura o pequeno golpista não vai além dos pracatuns cajuenses e dos intermináveis forrós de 60 dias, na prestação de favores ao príncipe foi mais voluntarioso, sem que isso lhe deixasse com uma ponta de vergonha e constrangimento. Mas ganhou as manchetes da semana no jornalismo fake produzido pelos seus aliados.
Os protagonistas dessa última ópera bufa, na verdade, desprezam não só a democracia, como as instâncias jurídicas, desconsiderando não só a independência e autonomia do Poder Judiciário, mas imaginando que seus membros, que ali chegaram por mérito, talento e concursos públicos, poderiam acolher pedaladas eleitorais para tirar do povo o direito ao voto. Homens e mulheres cujas biografias não tolerariam um desrespeito tamanho. Aguardemos a patacoada da próxima semana.
* Luciano Correia, jornalista, é professor da UFS


