* Luciano Correia
A urgência do voto em Lula há muito deixou de ser ideológico. Comunistas? Nem na China. Aliás, nem sei porque tanta rejeição a um presidente em cujos governos o empresariado, o agronegócio e os tubarões da mídia ganharam tanto dinheiro. Sim, o governo Lula é liberal, pendendo um pouco para a centro direita. O que está em jogo não é política ideológica, mas a retirada do último obstáculo para a vitória do crime organizado. Os Bolsonaros e aliados no país inteiro usam a desculpa dos defeitos do PT para roubar mais ainda e entregar as riquezas do país a Donald Trump. Isso é acerto de máfia.
Com a eleição praticamente empatada, qualquer erro é fatal. Ao mesmo tempo, encontrar falhas do adversário ajuda a desgastá-lo. Na semana passada o comando petista da campanha foi atrás de um antigo projeto engavetado pela inviabilidade e pela falta de apoio político. A questão é essa: quem diabos no PT foi desenterrar aquela patacoada da Nossa Senhora de Aparecida para transformá-la em moeda política? Quem vota em Lula, não por causa do PT, mas pela mínima segurança e paz que um governo dele traz, fica sem entender como a estultice é acolhida serenamente pelos generais da campanha.
Com o Império americano intoxicado por um louco ladrão na presidência, aguardando o momento ideal para dar o bote nas eleições brasileiras, contribuições da direita e dessa esquerdinha delirante não faltam. Essa ideia da padroeira Aparecida é um exemplo. Que nunca deixemos de olhar para trás na nossa própria história. Em 1964, o estopim para o golpe militar foram as provocações plantadas num movimento de soldados da Marinha.
Em nome de qualquer reivindicação, de reparações e outras exigências, instala-se o caos permanente. O personagem que liderou o movimento era um sergipano travestido de grevista: o cabo Anselmo, de triste memória. Constatou-se depois: era um espião a serviço da CIA. Os cabos Anselmos nunca faltam na história brasileira, à direita e à esquerda, se é que dá para reconhecer como esquerda quem executa um serviço desses. Tudo que a direitona associada aos partidos do crime organizado (PCC e CV e outros nanicos) querem é que inocentes úteis resolvam aprontar, lacrar aqui e ali.
Aqui, na semana passada, alguns desses nem inocentes nem úteis provocaram uma cena vexatória, mas também perigosa, pela péssima mensagem que passa. Numa reunião para explicar pagamentos de salários atrasados a servidores terceirizados da UFS, o reitor daquela instituição foi acossado em seu gabinete de trabalho, não pelos servidores em busca de uma explicação, coisa que o reitor fazia justamente naquele momento, mas por estudantes que entraram na reunião supostamente para dar apoio aos trabalhadores.
No instante em que começava a falar, foi interrompido por uma xinga. Uma aluna aumentou em dez vezes o volume e o tom até então dominantes numa conversa civilizada para, dedo em riste e aos gritos, exigir respeito e disparar impropérios contra a autoridade de uma instituição que, pela essência de sua atividade, é chamada de Magnífico. Pobre Magnífico reitor da UFS! Ficou ali engolindo desaforos, perplexo, sem saber mais como conduzir uma reunião que se encaminhava com civilidade e que, agora, ensejava a ópera bufa de um circo.
Nossa versão atualizada do cabo Anselmo vestia uma camiseta de sua candidata a presidente, Samara Martins. Fiquei pensando se o provocador fosse de direita e vestisse uma camisa de Flávio Bolsonaro. Aí teríamos farto material para campanhas que, embora tenham o que dizer, não dizem, porque, como as universidades públicas, foram sequestradas por bandos delinquentes. Uma gente que acredita que a simples opção por uma camiseta de esquerda ou direita lhes dá o famoso “lugar de fala” (arghh, que nojo dessa idiotice!) para invadir o gabinete de uma autoridade. Como os meninos maus de nossa infância faziam: jogar vidro no campo, furar a bola e acabar com a pelada. O mais comovente, no caso do reitor, foi sua solidão entre os mármores de sua sala: não havia um só pró-reitor, ao menos o chefe do setor financeiro, para assessorá-lo nos pormenores relacionados com o problema.
No dia seguinte, o constrangedor silêncio de supostos aliados: Adufs, Sintufs, entidades estudantis, professores “aliados”, Fapeses e outros interesseiros. Nem um pio. Ninguém teve a dignidade de uma nota em solidariedade à violência perpetrada contra a autoridade máxima da instituição, independente da justeza da causa dos servidores.
Voltando à eleição e aos aloprados capazes de riscos irreversíveis, Lula tem muito o que mostrar. Seu terceiro governo é o melhor, mas foi sequestrado por gente como Paula Lavigne, Jaques Wagner e até pelo traquino Fábio Luís “Lulinha”. Foi minado na própria casa, pela padroeira desse identitarismo intolerante, a mulher que dorme com ele, Janja. Como essa gente tem poder e manda, contamina a propaganda do candidato com factóides como o da santa Aparecida.
Em vez de correr para o povo e conversar na sua linguagem, Lula fica entre essa cruz e espada, substituindo causas seculares da esquerda pelos saraus da esquerda festiva. Recentemente vimos uma reunião entre artistas e o candidato discutindo coisas como cotas, cachês e outros utensílios reivindicados pelos figurões da MPB. A porta-voz do lobby era a digníssima esposa de Caetano Veloso, discorrendo à vontade sobre como ela acha que deve funcionar a Cultura num governo de esquerda, para ira e revolta dos artistas que não frequentam a bolha da dupla Lavigne-Janja.
Seja nas grosserias na reitoria da UFS ou na desvirtuação do debate político para temas da guerra cultural, os quinta-colunas estão conseguindo erodir a votação de Lula. Que não nos esqueçamos: 1964 foi um dia desses!
* Luciano Correia, jornalista, é professor da UFS

