Relatório final do Censo da População em Situação de Rua de Aracaju é consolidado pela UFS

A Universidade Federal de Sergipe (UFS) construiu na publicação do relatório final do Censo da População em Situação de Rua de Aracaju, documento que consolida dados, metodologia e o registro histórico de um levantamento inédito no país. Após a divulgação dos números preliminares, em março de 2025, o relatório agora sistematiza de forma detalhada o perfil da população recenseada e o processo coletivo que marcou todas as etapas do trabalho.
O levantamento identificou cerca de 623 pessoas em situação de rua no recorte analisado. O número revela um descompasso importante: o total de vagas disponíveis em abrigos municipais e estaduais gira em torno de 120 a 150.
Desde 2023, a UFS atuou por meio de um projeto de extensão, assessorando o Grupo de Trabalho responsável pelo censo, em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde e com os movimentos sociais. A Universidade participou do planejamento, da execução, da sistematização e da publicização dos dados, garantindo rigor metodológico e fortalecendo a dimensão participativa da iniciativa.

Metodologia participativa – Para o psicólogo Helmir Oliveira, vinculado ao Departamento de Educação em Saúde do campus de Lagarto (DESL/UFS), o principal diferencial do censo foi a construção coletiva.
“A metodologia participativa começou com o envolvimento direto da população em situação de rua, por meio dos seus movimentos sociais, especialmente o Movimento Nacional da População em Situação de Rua, seccional Sergipe. Eles estiveram presentes desde as primeiras discussões e todas as decisões foram tomadas de forma colegiada. A definição dos locais de abordagem, por exemplo, contou com a orientação direta dessas pessoas, que conhecem a dinâmica da cidade e indicaram onde a presença é mais significativa”, explica.
Um dos critérios pactuados pelo grupo foi considerar como público-alvo as pessoas que dormem e acordam na rua. Segundo Helmir, essa escolha metodológica levou em conta a própria dinâmica de circulação dessa população.
“Muitas pessoas passam o dia em uma região da cidade e se deslocam para outra à noite para dormir. Por isso, realizamos a coleta de dados entre 22h e 3h da manhã. Para isso, o apoio dos movimentos foi fundamental. Integrantes da própria população em situação de rua atuaram como recenseadores, abrindo caminhos e garantindo que a abordagem fosse feita de forma respeitosa e segura”, destaca.

Articulação – De acordo com o professor Bruno Gama, do Departamento de Psicologia (DPS/UFS), a parceria teve início a partir da inserção da Universidade na rede de saúde mental do município, por meio da residência multiprofissional.
“A partir de um convite da Secretaria Municipal de Saúde, entendemos que o censo exigia um esforço institucional mais amplo. Sugerimos que a Universidade fosse chamada oficialmente para compor o trabalho, possibilitando a participação de diferentes áreas, como Psicologia, Geografia e Educação em Saúde. Desde o início, cadastramos o projeto como ação de extensão, reforçando o compromisso da UFS com a comunidade externa”, afirma.
Segundo ele, embora o censo tenha natureza de pesquisa, a opção pelo registro como extensão evidencia o caráter socialmente comprometido da iniciativa. “Os limites entre pesquisa e extensão são muito mais artificiais do que reais. Atuamos desde o planejamento até a sistematização e divulgação dos dados, consolidando uma experiência formativa para estudantes e professores e, ao mesmo tempo, socialmente transformadora”.

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