RESISTÊNCIA SEM ANISTIA

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos

Se alguém ainda tinha alguma dúvida, os fatos do último domingo, 8 de janeiro, em Brasília-DF, falaram por si só. Na verdade, eles gritaram e escararam a cara de uma horda que se valia e se vale das redes sociais para disseminar não só desinformação, mas também ódio e subversão da ordem que essa “gente” tanto venera ao estampar (ou sequestrar) as cores da Bandeira Nacional e o manto da Seleção Brasileira de Futebol. Como podem ostentar o lema “Deus, Pátria e Família” depois de tudo que vimos e do que foi levantado pelas autoridades policiais, militares e judiciais do país ao longo desta semana? Crimes e atitudes as mais hediondas possíveis que fazem Nosso Senhor Jesus Cristo corar de vergonha de quem usa o seu Santo nome em vão.
Em 2018, ano em que o “senhor” Jair Messias Bolsonaro foi eleito (hoje, temos claramente a consciência de que foi um aborto da vida política e democrática nacional), a editora Record publicou, em primeira edição, o livro “Fascismo Eterno”, do consagrado escritor italiano Umberto Eco (1932-2016). Trata-se de um texto de fôlego curto, mas profundo, reflexivo e de tomada de consciência. Em linhas gerais, para além de nos apresentar na prática (como testemunha) e conceitualmente o fascismo, Eco destaca a ideia de resistência, que para além de ser um “mito comunista”, tem a ver com a garantia das liberdades individuais e coletivas, com a libertação do opressor, de enfrentar as vontades imperialistas, autocráticas e ditatoriais, de combater, com coragem, as intolerâncias.
Entre os inúmeros axiomas e ideias-chave que o texto de Umberto Eco nos apresenta e nos presenteia para este século XXI, uma chamou minha atenção e traduz, em grande medida, nosso tempo no tosco e confuso momento político brasileiro que vivemos: “Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas” (p. 48). Ao iniciar o terceiro governo de Luís Inácio Lula da Silva, foi o que mais se viu, até o momento: terra arrasada na saúde, na educação e na cultura, principalmente. Não bastasse isso, aquela “gente” do último domingo para além de atentar contra a democracia, feriu o coração do poder no Brasil e destruiu, parcial e incalculavelmente, os bens públicos, inclusive os de valor histórico.
Por isso mesmo, na forma da lei, não pode haver leniência e muito menos condescendência com aqueles marginais. Afinal, é o nome que se dá (até mesmo pelos bolsonaristas mais radicais) a quem pratica crimes, como fizeram alguns deles naquele domingo. E nesse sentido, foram sim as autoridades locais de Brasília coniventes e responsáveis por tudo aquilo que se presenciou com tristeza e revolta, e também com asco. “Homens e mulheres de bem” praticando toda sorte (para não dizer azar) de barbaridades. Assim o fizeram em nome de Deus? Da Pátria? E da Família?
Ora, me poupem, canalhas hipócritas! Que paguem pelas consequências de seus atos. E que prevaleça sempre a democracia, pois não há mais espaço para tiranos na história do Brasil. E não me venham com esse papo de liberdade de expressão, pois aprendemos com a vida e com a História que com extremistas não se discute, como deveria e deve ser em um regime democrático, mas se combate, resiste, sob pena de seus atos instalarem o caos, a injustiça e todas as coisas que vem como consequência, tais como pobreza, desigualdade social e de oportunidades, opressão e morte.
Sobrevivemos à pandemia de COVID-19, sobrevivemos aos desmandos e conduta errática do ex-presidente da república e suas constantes e reiteradas incitações à violência, sobrevivemos ao último domingo e assim há de ser, porque a democracia não é apenas uma palavra ou prédios, é uma conquista, um direito adquirido a muito custo e sacrifício, e não vai ser uma minoria burra, truculenta, ignorante e inconsequente que irá impor as suas vontades e frustrações, porque RESISTIR é da essência e da natureza humana. E façamos isso sem anistia, pois, já dizia Edgar Allan Poe(1809-1849): “Quando um louco parece completamente lúcido é o momento de colocar-lhe a camisa de força”.

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