Gabriel Damásio
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Durou mais de quatro horas a audiência de julgamento e conciliação entre a cantora Rita Lee Jones de Carvalho, 64 anos, e representantes dos 35 policiais que a processaram na Justiça, pedindo indenização por danos morais. A reunião aconteceu no Fórum Desembargador Fernando Franco, no Santa Maria (zona sul). O processo, que corre no 7º Juizado Especial Cível de Aracaju, se refere ao show de despedida dos palcos, em janeiro deste ano, na Barra dos Coqueiros (Grande Aracaju), quando Rita xingou os PMs de ‘cavalos’, ‘cachorros’ e ‘filhos da puta’, e acabou presa por desacato à autoridade e apologia ao uso de drogas. Ontem, a cantora foi ouvida formalmente pela juíza Andréa Caldas de Souza, da Comarca de Nossa Senhora do Socorro.
Ao final, nenhuma decisão foi tomada, pois Andréa pediu a juntada de provas para análise, como as notícias publicadas na imprensa sobre o assunto, a escala de policiais militares que trabalharam no evento e o vídeo da Secretaria Estadual de Cultura (Secult) com a íntegra do show na Atalaia Nova. A previsão é de que a sentença do caso seja decidida em quatro dias ou em até duas semanas, devendo valer para todas as 32 ações movidas individualmente pelos PMs contra a cantora, que foram ingressadas em diversos fóruns de Aracaju, Nossa Senhora do Socorro e Barra dos Coqueiros.
O impasse entre as partes permaneceu, pois os policiais quiseram que a cantora pagasse uma indenização de quase R$ 25 mil a cada um. Já a defesa de Rita ofereceu R$ 40 mil, mas para serem divididos por todos os policiais. Uma proposta de retratação pública apresentada pelos advogados da artista também foi recusada, pois, segundo os representantes dos PMs, a retratação estaria condicionada à assinatura de um documento, nos qual os militares admitiriam que agiram com truculência durante o show, ao abordar fãs que fumavam maconha em frente ao palco. A acusação é sustentada pela cantora, mas negada pela Polícia Militar.
A audiência mudou completamente a rotina do Fórum Fernando Franco, que ficou movimentado por conta da presença dos policiais e dos jornalistas. Inicialmente, ela estava marcada para começar às 8h30, mas atrasou em duas horas, pois um dos advogados dos policiais demorou a chegar ao Fórum. Rita Lee chegou ao local às 8h em ponto, em uma van que os buscou no Aeroporto Santa Maria após seu desembarque. Ela estava acompanhada do marido, o compositor e guitarrista Roberto de Carvalho, de três advogados, de alguns assessores e da ex-senadora alagoana Heloísa Helena (PSOL), que se apresentou como testemunha de defesa. A artista entrou no fórum pelo corredor reservado aos juízes e só falou com a imprensa na saída, pela entrada principal, por volta das 14h30.
Já os cerca de 20 policiais que compareceram, fardados e desarmados, permaneceram o tempo todos na sala de espera do local, demonstrando uma contida revolta contra a cantora. A princípio, Rita demonstrava tensão e incômodo com a presença dos policiais, a ponto de pedir a retirada deles da sala de audiência. Isso aconteceu depois que cinco PMs, prestaram depoimento diante da juíza. A princípio, apenas um policial falaria em nome dos colegas, mas os advogados da artista pediram a presença de outros quatro militares para depor como testemunhas. O clima de tensão foi quebrado em alguns instantes por fãs da cantora e servidores do próprio fórum, os quais entravam na sala de audiência para pedir autógrafos e tirar fotos com ela.
Impressões – Em uma entrevista rápida e tumultuada, Lee lamentou o episódio com a polícia e disse que quer voltar a fazer um show em Sergipe. "Eu lamento o que aconteceu e espero voltar a Aracaju, não em uma situação assim desagradável, mas para fazer show mesmo, para botar a rapaziada para cima, para pular e dançar. Eu estou tranqüila, confio na Justiça sem dúvidas, amo meus fãs e o povo de Sergipe. Vim depor com muita aflição porque foi a primeira vez, nunca aconteceu isso comigo, mas correu tudo bem. Todo mundo foi maravilhoso", disse ela, mais bem-humorada. Ao encerrar, ela piscou o olho ao ser perguntada pelos repórteres sobre o fim das suas apresentações em público: "Ih, meu Deus! Foi quase… mas não foi desta vez".
Já os policiais demonstravam insatisfação com o resultado da audiência e chegaram a defender que a cantora saísse presa e algemada do Fórum. "Isso seria cômico se não fosse trágico. A senhora Rita Lee vem a Sergipe, desacata policiais militares que estavam cumprindo a Lei. Estavam trabalhando para manter a ordem, enquanto ela incitava as pessoas a consumirem drogas. Como se isso fosse pouco, ela ainda nos chama de cachorro. E como se tudo fosse pouco, ela vai à capital federal, abaixa a calça e todo mundo ri", lamenta o sargento Edgard Menezes, da Associação dos Militares de Sergipe (Amese), referindo-se a um show ocorrido na semana passada em Brasília (DF), onde Rita mostrou o bumbum para a platéia e foi aplaudida.


