Saraiva já vai tarde

Saudade nenhuma.
Rian Santos – riansantos@jornaldodiase.com.br
 
Leio sobre o fim das lojas físicas da Saraiva e lembro que no primeiro ano da pandemia, o segmento livreiro faturou R$1,74 bilhão. E isso porque a brava gente não cultiva bibliotecas.
Os magnatas do negócio choram de barriga cheia. As lágrimas derramadas chegaram ao cúmulo de acusar o risco potencial de o ensino remoto suplantar o livro didático. Conversa mole pra boi dormir. Quem passou anos numa universidade federal, na fila da Xerox, como eu, conhece as gambiarras adotadas pelos estudantes a fim de economizar alguns tostões furados.
A estratégia é requentada. Em 2018, quando tudo levava a crer na extinção das grandes redes, leitores espalhados pelos quatro cantos do País se penitenciaram, cheios de culpa. Estariam gastando pouco e lendo menos ainda. Hélio Schwartsman, colunista da Folha, chegou a ponto de cuspir no próprio Kindle. Em sua cabeça, os 548 títulos devorados no leitor digital ao longo de uma década poderiam tirar a Saraiva do vermelho.
Ledo engano. Para as megastores disfarçadas em sebos gentrificados, o livro não passa de mais um artigo na prateleira, talvez o menos rentável. Fosse diferente, o cataclismo anunciado em primeira página realmente teria acabado com o negócio, demolindo o santuário de ácaros e poeira erigido sob a aparência orgulhosa das bibliotecas domésticas. Um jogo de espelhos, arquitetado com o fim de preservar interesses da ordem de bilhões de reais.
Felizmente, não faltaram vozes lúcidas para acusar a pantomina. Élio Gaspari negou a crise com todas as letras. Embora admitisse os números apresentados pelas maiore slivrarias do país (além da Saraiva, já citada, as dificuldades se pronunciavam também nos balanços da livraria Cultura), com dívidas acumuladas de até R$ 400milhões, o jornalista fez questão de lembrar o óbvio: Nunca houve crise no mercado editorial. No ano anterior, o setor cresceu 5,7%. No mesmo período, o faturamento aumentou 9,3%. Assim, se as gigantes meteram os pés pelas mãos, foi em razão do olho grande, problema delas.
Miriam Leitão foi além das planilhas apresentadas junto ao pedido de recuperação judicial das livrarias. Para ela, a discussão não podia ficar restrita à esfera econômica. Tratava-se, isso sim, de uma questão com implicações nítidas em qualquer estratégia de emancipação social. “Enquanto o setor encontra suas saídas, é bom pensar nos livros e seu valor intangível. Sem eles, fechados em bolhas digitais alimentadas por algorítimos, somos presas frágeis no tempo distópico que vivemos”.
Por óbvio, o conselho da jornalista não se destina exclusivamente aos executivos da Saraiva e da Cultura. Dados divulgados pela Edise, por exemplo, demonstram que o Governo de Sergipe está ciente da importância de investir em um parque gráfico moderno, capaz de suprir a demanda gerada pela criação de um mercado editorial com as raízes fincadas no chão Serigy. Mas isso foi antes do Covid-19 elencar novas prioridades. O amanhã a Deus pertence.
Falando nisso, off topic: Alguém sabe se os rumores sobre a retomada da Cumbuca procedem? Extinguiu-se a revista, além da inteligência fulgurante de Amaral Cavalcante?
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