Milton Alves Júnior
Mais de 140 mil usuá rios do transporte público da região metropolitana de Aracaju ficaram sem o serviço durante toda a manhã e tarde de ontem. A paralisação do sistema ocorreu ainda no início da madrugada, quando centenas de motoristas e cobradores decidiram cruzar os braços em protesto semelhante ao protagonizado no último mês de setembro. Durante a realização dos atos, a classe trabalhadora voltou a protestar contra os recorrentes atrasos nos salários e benefícios do mês passado, os quais atingem diretamente motoristas, cobradores e equipes de manutenção. De acordo com o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Aracaju (Setransp), a suspensão das atividades contou com o apoio de aproximadamente 900 profissionais.
Pela Prefeitura de Aracaju – através da Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito (SMTT) -, foi oficializado que a mobilização foi deliberada por trabalhadores contratados pelo Grupo Progresso, que compreende as empresas Paraíso, Tropical e Progresso; ao todo, 146 ônibus de 43 linhas afetadas. A maioria desses itinerários afetou, em especial, os bairros da Zona de Expansão, localizados na região Sul da capital sergipana; fora de Aracaju, os primeiros pontos de aglomeração formados pela redução de ônibus em circulação foram nos conjuntos Eduardo Gomes e Rosa Elze, em São Cristóvão. Diante do transtorno, o Setransp acionou outras quatro empresas prestadoras do transporte na tentativa de minimizar o problema.
Crise – Sobre o cenário econômico enfrentado pelo setor, o Setransp voltou a destacar que o serviço de transporte segue pedido socorro às autoridades governamentais devido à falta de aporte extra tarifário neste momento de calamidade pública provocado pela pandemia mundial do coronavírus. As empresas têm mantido os esforços para prestar regularmente o serviço e manter os postos de trabalho, diferente do que tem acontecido pelo país com demissões em massa. "Cada vez mais se aumentam as possibilidades de se estabelecer um colapso e o serviço de transporte ser interrompido por falta de condições econômicas e isso prejudicar não somente a mobilidade das pessoas, mas todo setor produtivo da cidade que depende do transporte coletivo para os deslocamentos diários."
O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Município de Aracaju ressaltou ainda que ao longo deste período de pandemia, as empresas prestadoras do transporte acumularam dívidas em função de ofertar serviço com custo bastante superior à receita apurada, e mesmo o transporte coletivo estando elencado entre os direitos sociais na Constituição Federal, junto, inclusive, com a saúde, não recebeu qualquer suporte financeiro para possibilitar a sua subsistência. Atualmente mais de 300 ônibus segue diariamente em circulação, conduzindo um efetivo superior a 180 mil passageiros. Conforme enaltecido pelo Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Aracaju (Sinttra), a última mobilização [realizada em 09 de setembro] também foi organizada pelos trabalhadores do Grupo Progresso.
Ao JORNAL DO DIA, o rodoviário Marcos Sérgio Santos revelou que dezenas de trabalhadores enfrentam sucessivos problemas financeiros devido à instabilidade administrativa econômica aplicada pelas empresas. "É gente sem pagar água; com a energia prestes a ser cortada; devendo aluguel de casa; passando fome para não deixar o filho sem alimento; devendo pensão alimentícia e ameaçado de prisão. Enfim, a situação é muito ruim e por isso que estamos mais uma vez realizando essa paralisação para ver se esses problemas são resolvidos de uma vez por todas", protestou. Questionado sobre a possibilidade de novas paralisações ou greve por tempo indeterminado da categoria, o rodoviário não descartou a possibilidade.


