Gabriel Damásio
O desemprego continua muito presente na vida e na rotina dos sergipanos, mesmo com a recém-anunciada redução nos dados gerais de pessoas sem trabalho. Isso faz com que, atualmente, existam mais pessoas recebendo benefícios do governo do que trabalhando com carteira assinada. Uma reportagem publicada na última quarta-feira pelo site Poder 360, com base em dados do governo federal, aponta que Sergipe é um dos 12 estados brasileiros onde o total de beneficiários do Auxílio Brasil, programa do governo federal que substituiu o Bolsa-Família e paga uma média de R$ 400 a famílias de baixa renda, supera o de trabalhadores formais.
Segundo os dados da reportagem, apurados em fevereiro deste ano pelos ministérios do Trabalho e da Cidadania, o número de empregados com carteira assinada em Sergipe alcançou 284.212 trabalhadores. Já o de pessoas que recebiam o Auxílio Brasil no mesmo período foi de 347.319, considerando os que são trabalhadores informais. A diferença entre eles ficou em 63.107 pessoas. Além de Sergipe, outros 11 estados das regiões Norte e Nordeste também estão com menos empregados formais em relação aos beneficiários do Auxílio. Os únicos estados das regiões com a proporção inversa, isto é, com mais empregados formais, foram Rio Grande do Norte, Roraima, Tocantins e Rondônia.
Os dados expõem a dependência das economias de estados menos desenvolvidos, como Sergipe, dos repasses de recursos do governo federal e das receitas geradas pelo setor de serviços, bastante afetados pelos desdobramentos da pandemia da Covid-19. Segundo o economista Josenito Oliveira, professor dos cursos de Administração da Universidade Tiradentes (Unit Sergipe), trata-se de um reflexo das crises econômicas que atingem o Brasil desde 2015, igualmente pioradas pela pandemia e também por uma sucessão de crises políticas.
“Esses números demonstram que o índice de desemprego continua muito alto em todo o país, e que a economia ainda não está girando com a mesma força. As crises sucessivas que o Brasil vem enfrentando desde 2015 causaram uma queda muito grande dos empregos e também da massa salarial, que está hoje numa média de R$ 1.300. Eles também refletem a decisão do governo de aumentar o número de beneficiários do Auxílio Brasil, a partir de uma ampliação dos critérios”, diz o professor, ressaltando que o cenário econômico é regido por “uma grande cadeia de fatores”.
Sobre a diferença entre os níveis de emprego dos estados brasileiros, Josenito afirma que as dinâmicas econômicas das regiões brasileiras seguem realidades diferentes. “Enquanto os estados do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste têm uma atividade muito forte na indústria e no agronegócio, os do Norte e do Nordeste têm um peso maior dos setores de serviços, que foram gravemente afetados pela pandemia. Nosso potencial maior está nos serviços como o comércio, o turismo, a hotelaria, os setores de eventos, bares e restaurantes… tudo isso que foi paralisado com a pandemia e que agora está tendo um processo de retomada. Claro que o Nordeste tem indústria e produção agrícola, mas não é tão forte como os do Sul e do Sudeste”, considerou.
No caso de Sergipe, ainda de acordo com o professor da Unit, cerca de 70% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado está relacionado ao setor de serviços. “Por outro lado, a indústria involuiu com os processos de desmonte da Petrobras e das atividades de mineração, que foram reduzidas drasticamente”, acrescenta ele.
Investimentos – Uma perspectiva recente se abriu com a decisão do governo federal de criar uma política nacional de incentivo à produção nacional de fertilizantes, produto bastante demandado pelo agronegócio brasileiro, mas que tem hoje uma dependência muito grande da Rússia – principal produtor de fertilizantes e que enfrenta sanções econômicas internacionais por ter travado uma guerra com a Ucrânia. Sergipe é um dos principais fabricantes nacionais de fertilizantes e possui grandes reservas de potássio, silvinita e carnalita. “Uma retomada dessa produção, não será suficiente para tornar o Brasil autossuficiente, pode ajudar bastante. E principalmente com a geração de empregos, de renda e de impostos, para movimentar mais os outros setores da economia”, avalia Josenito.
O economista acredita que a situação do desemprego vai ser revertida com o aumento dos investimentos do setor público e da iniciativa privada. No entanto, ele pondera que esses investimentos só virão quando o Brasil e seus estados garantirem confiança, com segurança jurídica, estabilidade política, baixos riscos de prejuízos e alta perspectiva de rentabilidade. “É necessário haver investimentos para a geração de empregos, mas os investidores só estarão motivados quando sentirem que o país oferece essas condições. E isso passa quando os gestores e a classe empresarial buscarem estabelecê-las”, conclui Josenito.


