Servidor do Ibama é preso por cobrar propina

Gabriel Damásio

 

Um técnico ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), lotado em Aracaju, foi preso em flagrante às 9h de ontem por agentes da Polícia Federal. Ele é acusado de cobrar o pagamento de R$ 12 mil em propinas, em troca da diminuição do pagamento de uma multa por infração ambiental. O crime, qualificado como corrupção passiva, foi denunciado pelo dono de uma pousada-restaurante situada em Neópolis (Baixo São Francisco), que chegou a pagar R$ 2.600,00 em dinheiro ao fiscal, em um encontro monitorado pela PF. O servidor, cujo nome não foi divulgado, foi seguido e detido na Rua Mariano Salmeiron, bairro Siqueira Campos (zona oeste da capital).

De acordo com o delegado federal Robert Nunes Teixeira, chefe do Núcleo de Inteligência Policial da PF em Sergipe, a denúncia foi formalizada anteontem, mas o assédio do fiscal começou 30 dias antes. O dono da pousada havia recebido a multa de R$ 120 mil pela infração e recebeu a proposta. “A multa, em princípio, era de R$ 120 mil e o fiscal, segundo a vítima, solicitou 10% dos 120 mil a título de uma suposta interferência em instâncias do Ibama para que houvesse o abatimento dessa multa. Ele [o dono] recebeu um primeiro contato, não entendeu muito, e resolveu se encontrar com o servidor. A partir daí, o servidor disse que poderia interferir no processo e teria que ser remunerado pra isso”, explicou.

O empresário pediu 30 dias para pensar na proposta feita pelo funcionário e decidiu não atender aos telefonemas que ele lhe faria posteriormente. De acordo com o delegado, as ligações eram insistentes e o fiscal mandou várias mensagens. Uma delas, conforme as investigações, tinha a seguinte frase: “Você não atende o telefone. Se ligue!”. O comerciante se sentiu ameaçado e decidiu denunciar o caso. “A vítima se sentiu constrangida, coagida a pagar a vantagem indevida, e decidiu retornar a ligação. Foi aí que eles marcaram um encontro para que pudéssemos acompanhar”, disse Robert.

O encontro aconteceu no estacionamento do hipermercado Atacadão, na Avenida Osvaldo Aranha, bairro Veneza. Ali, os policiais avistaram um pacote branco de dinheiro sendo entregue ao fiscal do Ibama, que colocou-o imediatamente no bolso e exigiu que o restante da propina fosse pago em oito dias. Ele saiu rápido do estacionamento, mas foi alcançado, preso e levado à sede da Superintendência Estadual da PF, no Siqueira Campos. O dinheiro pago pelo dono da pousada foi apreendido. Segundo o delegado, a justificativa dada pelo fiscal foi curiosa: “Ele afirmou que o dinheiro solicitado seria para emprestar a um amigo dele, que estava pedindo ajuda e dizia que estava ‘no sufoco’”, revelou Teixeira.

O servidor passou todo o dia prestando depoimento na sede da PF e, após passar por exame de corpo delito no Instituto Médico-Legal (IML), foi enviado a uma delegacia da Policia Civil. A previsão é de que, hoje de manhã, ele seja submetido a uma audiência de custódia na Justiça Federal de Sergipe (JFSE), a qual decidirá se o servidor permanece preso ou responde ao processo em liberdade. Ele foi autuado pelo crime de corrupção passiva e pode ser punido com até 12 anos de prisão, mais o pagamento de multa.

Um inquérito policial foi aberto sobre o caso e o delegado Robert irá pedir que o Ibama envie à PF os autos de infração da fiscalização que resultou na multa à pousada de Neópolis. “Todo o processo do Ibama está regular, dentro das normas, e o valor da multa pode ser reduzido, mas desde que a multa seja paga em dia e que o infrator cumpra uma série de requisitos previstos pelo Ibama”, esclareceu, acrescentando que a infração estava em fase de recurso e só pode ser julgada pela sede da repartição, em Brasília (DF). Ainda conforme Teixeira, o órgão ambiental vai requisitar o inquérito da PF para abrir um processo disciplinar contra o servidor, que tem 36 anos de carreira no serviço público e, se condenado, pode até ser demitido do cargo. 

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