Gabriel Damásio e Milton Alves Júnior
Dois ônibus incendiados, desassistência no transporte público e muita revolta. Esse foi o saldo negativo deixado na noite da última segunda-feira por causa de uma disputa entre duas quadrilhas que disputam o controle do tráfico de drogas no Conjunto Marcos Freire II, em Nossa Senhora do Socorro (Grande Aracaju). Por volta das 20h, um grupo de motoqueiros armados renderam os motoristas e colocaram fogo em dois veículos da empresa Atalaia Transportes que serviam às linhas Piabeta/DIA e Socorro/Marcos Freire.
De acordo com os funcionários da empresa, os dois veículos estavam em repouso, no entorno do Terminal Franklin de Oliveira Ribeiro, no Marcos Freire II. Nos dois casos, toda a ação não durou mais de dois minutos: os criminosos chegaram em duas motos e, apontando armas, obrigaram os motoristas e cobradores a descer correndo dos ônibus e, depois espalharam combustível, ateando fogo em seguida. Funcionários da Atalaia tentaram ainda apagar as chamas, mas elas se espalharam rapidamente pelos carros, que ficaram completamente destruídos.
O que chamou a atenção, contudo, foi a ousadia: enquanto uma equipe do Corpo de Bombeiros ainda tentava conter as chamas que destruíam o primeiro veículo danificado, tendo passado apenas meia hora, o segundo ônibus foi atacado a poucos metros, depois que outros motoqueiros passaram dando uma ordem aterradora:
– Se tiver motorista e cobrador, desça que a gente vai queimar tudo.
Após cumprirem a ameaça, os criminosos fugiram fazendo gestos obscenos e xingando as vítimas, fazendo gestos obscenos e ameaças para que elas não os reconhecessem.
Ao tomar conhecimento dos ataques, todos os ônibus com destino ao Complexo Taiçoca acabaram estacionando nos terminais de integração e cessando as atividades. Muitos passageiros ficaram revoltados com o posicionamento dos motoristas, sem saber ainda do que se passavam. Para evitar um princípio de tumulto, duas equipes da Guarda Municipal de Socorro (GMS), foram encaminhadas imediatamente para cada terminal da cidade. Só após a chegada dos agentes os usuários do transporte público foram informados do ocorrido.
Sem o coletivo à disposição, muitos optaram pelos carros clandestinos para seguir o restante do trajeto e não ter que voltar para a respectiva residência caminhando. Esse foi o caso da comerciante Larissa Carvalho que criticou os vândalos pelos transtornos causados em toda Grande Aracaju. Para ela, o sistema público que já é precário, agora a tendência é piorar cada vez mais. "Sabemos que os marginais decidiram agir assim para vingar a vida de um traficante, mas não olharam para o lado social. Mais de 150 pessoas estão aqui no Terminal do DIA sem saber o que fazer porque eles decidiram tocar fogo nos ônibus. Torcemos para que a polícia prenda logo os suspeitos", disse.
Reação da polícia – Os ataques, inéditos até então em Sergipe, estarreceram a população e mexeram com a Polícia Militar, que ocupou a região com soldados da Radiopatrulha (CPRp), do Batalhão de Choque (BPChq), do 5º Batalhão (5º BPM) e do Comando de Operações Especiais (COE). Às 22h30, dois suspeitos foram presos nas imediações do Terminal do Marcos Freire, com uma moto de cor cinza. Eles foram identificados como Anderson Araújo Santos, o "Testa", 19 anos e Humberto Santana Maranhão, 26, que está em liberdade condicional e é apontado como um dos líderes do tráfico na região.
O comandante do Policiamento Militar da Capital, coronel Jackson Nascimento, confirmou que os incêndios estão ligados ao assassinato de um traficante conhecido como "Léo" ou "Pezão", que foi morto a tiros no último domingo e disputava o controle do tráfico no Marcos Freire, contra com a quadrilha liderada por Humberto. "Existe uma disputa por área na venda da droga. O ‘Pezão’ desapareceu no último domingo e, segundo levantamento da nossa inteligência, o sumiço foi provocado pelo grupo rival, que tomou conta do Marcos Freire. O corpo apareceu no dia seguinte e o grupo que assumiu aquela área procurou criar um clima de instabilidade", disse Jackson.
O oficial explica que a tática dos grupos criminosos, ao assumir uma determinada área, é criar um clima de tensão para depois decretar um "toque de recolher", criando a impressão de que a quadrilha "pacificou" a área. "Só que, desde o desaparecimento do ‘Léo’, a Polícia Militar entrou pesado na região, fez várias apreensões e a venda de drogas diminuiu, e isso criou uma insatisfação entre os traficantes. Eles procuraram demonstrar esta insatisfação ateando fogo aos ônibus, mas isso não vai intimidar a PM", avisou o comandante.
Os dois acusados foram levados para a Delegacia Plantonista e depois para a sede do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope), que assumiu a investigação dos incêndios criminosos. Nascimento disse que o Serviço Reservado da PM (PM-2) já identificou outros sete homens que teriam participado dos ataques com "Testa" e Humberto. O comandante-geral da PM, coronel Maurício Iunes, divulgou os prenomes dos suspeitos: "Cleverton", "Davi", "Vitor", "Adroaldo" e "Atchim". "Estamos divulgando esses nomes para que eles saibam que nós já sabemos quem são os que estavam naquela noite. E todos eles vão ser presos", disparou.


