Gabriel Damásio
Durou pouco mais de duas horas a perícia de campo do Instituto de Criminalística e da Polícia Civil no local onde morreram a cantora Eliza Clívia, ex-vocalista da banda Cavaleiros do Forró, e o esposo dela, Sérgio Ramos. Os trabalhos começaram por volta das 8h30 de ontem, quando agentes da Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (SMTT) interditaram as ruas Capela, Propriá, Santa Luzia, Itaporanga, Lagarto e Maruim. Dois peritos criminais analisaram os trechos das ruas Maruim e Arauá pelos quais passaram os dois veículos envolvidos no acidente, ocorrido em 16 de junho e que provocou a morte das vítimas. A perícia foi pedida pela delegada Daniela Lima Barreto, titular da Delegacia Especial de Delitos de Trânsito (DEDT).
Ao acompanhar os trabalhos, Daniela confirmou que eles se devem a um problema encontrado no ônibus envolvido no acidente, pertencente à empresa Transporte Tropical: o tacógrafo, aparelho que registra a velocidade de veículos pesados, não funcionou na hora do choque do coletivo contra o Fiat Pálio que transportava Eliza, Sérgio e três integrantes de sua equipe. “Esse material já está conosco, o disco do tacógrafo está com a Criminalística para que ele seja analisado, mas já temos a informação preliminar de que, infelizmente, não houve marcação de velocidade [do ônibus]. Caso o equipamento tivesse funcionado, não haveria a necessidade dessa diligência de perícia”, disse ela, pontuando que a causa do problema no tacógrafo “também será apurada no decorrer das investigações”.
A polícia quer saber as velocidades alcançadas pelo ônibus e pelo carro no exato momento do acidente, o que ficou prejudicado pelo problema no equipamento. A delegada explicou que a perícia e as imagens do acidente, gravadas pela câmera de segurança de uma loja da Rua Arauá, permite uma alternativa. “Em razão dessa não marcação no disco, se fez necessário lançar mão de uma técnica de sobreposição de imagens para aferição de velocidade. Trata-se de uma perícia complementar, porque a velocidade verificada é um fator determinante para as conclusões do Instituto de Criminalística. Como tivemos essas imagens captadas, foi possível fazer essa sobreposição. Daí, a necessidade de ser no mesmo trecho, de usar a mesma câmera, de preferência no mesmo horário, com a mesma marcação de campo visual. Por isso, não pudemos fazer isso em laboratório, foi necessário vir a campo”, esclareceu.
Os peritos fizeram dois levantamentos técnicos no local: o topográfico (determinação das medidas, localização, orientação e representação gráfica) e o fotogramétrico (extração de medidas métricas, formas, dimensões e posições dos veículos nas imagens. Balizas e fitas foram estendidas pelos trechos para demarcar a trajetória dos dois veículos, medindo os trechos de dois em dois metros. Toda a marcação foi gravada.
“Primeiro inspecionamos os conteúdos digitais, como vídeos de câmeras de monitoramento do material enviado pela Polícia Civil e também obtidos pelos próprios peritos criminais, cedidos por empresas da região onde o acidente ocorreu. Em seguida, empregamos técnicas para extração de quadros contidos nos vídeos, além do melhoramento de imagens e armazenamento”, pontuou o diretor da Criminalística, Nestor Joaquim de Góis Barros. Ainda segundo ele, as imagens da perícia serão comparadas com a gravação do acidente e, em cima desta análise, cálculos físicos serão aplicados para estimar as velocidades alcançadas pelos veículos envolvidos. Não há uma previsão clara sobre a data de conclusão do laudo da perícia.
O inquérito – Em paralelo à feitura dos exames, a DEDT pretende tomar os depoimentos dos três feridos que sobreviveram ao acidente. O sanfoneiro Paulo Teixeira de Carvalho, 38 anos, e o empresário João Paulo Tavares da Silva, 32, receberam alta no dia seguinte ao acidente e moram no Rio Grande do Norte, onde devem ser ouvidos por carta precatória enviada à Polícia Civil local. “Essas pessoas foram ouvidas informalmente, porque não havia naquele momento a possibilidade de uma oitiva formal. Eles estavam ainda em estado de choque e com a saúde bastante frágil. Por esses dias, a depender do quadro de melhora, vai ser feita a oitiva desses dois sobreviventes”, disse Daniela.
Já o motorista Cleberton José dos Santos, 35, que dirigia o carro com a equipe de Eliza Clívia, não foi ouvido até o momento por falta de condições médicas. Ele sofreu traumatismo crânio-encefálico e permanece em estado grave no Hospital de Urgência de Sergipe (Huse), sem previsão de alta. O condutor do ônibus, cujo nome não foi divulgado, também deve dar depoimento nos próximos dias.
A delegada disse que o inquérito quer identificar se há algum responsável pelo acidente e se houve algum crime ou infração de trânsito. Ela admitiu que, por enquanto, ainda não há como apontar culpados, e preferiu só comentar as hipóteses investigadas após a conclusão dos depoimentos e a entrega dos laudos da Criminalística.


