Gabriel Damásio
A Polícia Civil já começou a investigar o assassinato da transexual Denise Sollony, 53 anos, cujo nome de batismo era Tenisson Rocha Melo. Ela foi assassinada às 22h40 deste sábado, após levar três tiros dentro da própria residência, na Rua I-2 do Conjunto Augusto Franco (zona sul). O crime foi cometido por dois homens armados que chegaram de moto à casa da vítima e lá ficaram por menos de um minuto. Os policiais já sabem que o garupa da moto pulou o muro da residência, achegou-se à janela, que estava aberta, e atirou depois de colocar a arma na fresta da grade. Denise morreu na hora, atingida na cabeça e no abdômen.
As primeiras testemunhas do caso começaram a ser ouvidas ontem de manhã por equipes do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que destacou o delegado Mário de Carvalho Leony para investigar o caso. A principal delas é um homem apontado como namorado de Denise, que estava com ela na sala da casa e foi ferido com um tiro de raspão no braço. A passagem dos assassinos foi gravada por câmeras de segurança instaladas em lojas comerciais da vizinhança, cujas imagens já foram obtidas pelos policiais. Elas mostram que os matadores estavam em uma moto de cor branca, com a qual fugiram rapidamente. O crime também chocou os vizinhos da vítima, que ouviram os disparos e entraram na casa para tentar socorrê-la. Todos descreveram a transexual como uma pessoa respeitada e querida.
O delegado confirmou que não houve latrocínio, pois nenhum objeto foi furtado da casa da vítima, e que a morte de Denise pode ter sido motivada pela homofobia, que é a aversão aos homossexuais. “Nada foi subtraído, então trata-se de uma execução. Nós não descartamos a hipótese da característica transfóbica do crime, que são aqueles crimes motivados pela intolerância e pelo ódio em relação à identidade de gênero da vítima”, disse Leony, destacando que 80 travestis e transexuais já foram assassinados no Brasil em 2017, incluindo Denise. Ainda segundo ele, já existe uma linha de investigação definida, mas ela não será detalhada agora, para garantir o sucesso do trabalho policial.
Para Mário, existe uma dificuldade adicional para os policiais que atuam no caso, pois, apesar de acolhida por seus familiares, Denise chegou a ser vítima de episódios de agressão e discriminação, que costumam estar ligados a crimes de homofobia. “Essa é uma situação muito difícil, que torna para nós, investigadores, o desafio muito maior. No caso dela, eu percebo que ela tinha uma relação mais estreita com seus familiares, mas, em via de regra, as travestis perdem o vínculo com a família, porque há uma dificuldade muito grande em relação à sua identidade de gênero. E as agressões que essas pessoas sofrem são recorrentes. Apesar de não termos hoje uma lei que criminaliza a homofobia e a transfobia, existem diversos crimes que também podem ser motivados por esse ódio. E isso é revelado na brutalidade da prática desses crimes”, explica.
O corpo foi liberado no domingo pelo Instituto Médico Legal (IML). As primeiras informações foram levantadas pela Polícia Militar e pelo próprio DHPP, com a equipe da delegada Maria Zulnária Soares. Além de ouvir as testemunhas, o delegado Mário Leony uma perícia do Instituto de Criminalística que vai identificar o tipo de arma utilizada pelos matadores. A população pode repassar denúncias e informações sobre o caso através do Disque-Denúncia (181) ou do aplicativo Disque-Denúncia SE. Os canais são gratuitos e o cidadão não precisa se identificar.


