* Anderson Bruno
Antes de começar a resenha crítica, quero compartilhar um momento sublime. Quando no caminho para a compra do bilhete para ver o filme na sala de cinema, fui muito bem atendido pela funcionária do complexo. Dayane seu nome. Muito simpática, conversamos algumas breves trivialidades próprias de uma sucinta conversa de caixa de atendimento – afinal outros espectadores estavam na fila esperando sua vez de serem atendidos. Não dá pra ficar muito tempo papeando. Comprei o bilhete e saí com aquela sensação de que se por vezes o funcionamento do cinema tem lá suas precariedades, por outro lado a simpatia refletida numa boa recepção, compensa suas deficiências. É bom ressaltar os bons acontecimentos também. Salve simpatia, Dayane!
Iniciando de fato o texto crítico, o principal atrativo de ‘Um Golpe Perfeito’ (Gambit, EUA, 2012, 90 min) está no roteiro dos irmãos Joel e Ethan Coen. Explorando sofisticação cômica, idiossincrasias da população nativa do interior norte americano, surpresas e golpes financeiros, o texto elabora uma bem armada trama de roubo a obras de arte. Mais precisamente a um Monet.
Mesmo com esse adendo positivo, o filme sofre de ‘timing’ na cadência da sua comédia. São momentos em que, mesmo tendo uma boa atuação dos atores – bem como uma boa (mas um tanto irregular) direção de Michael Hoffman – não é consumado o efeito da risada ou da gargalhada no público, quando este seria o seu efeito final. É como um prato bonito, porém sem sabor.
O filme gira em torno da comédia de situações criadas especificamente para este fim. O problema desse modelo está na tênue linha que separa a comicidade sutil daquela mais escancarada. O denominador comum entre essas duas modalidades cômicas ficou na corda bamba. Nem lá, nem cá – não no filme todo, porque é visível a boa construção da comédia em algumas sequências da produção – mas em vários momentos o disparate está lá.
Essa irregularidade fez surgir o pensamento sobre a comedida sociedade britânica versus a arredia população americana. Nesse paralelo, Colin Firth é o legítimo representante inglês. Sua parceira de cena, Cameron Diaz, é o reflexo americano da coisa. Num paralelo sobre a linha cômica estabelecida como modelo para o filme, Harry Deane (personagem de Colin Firth) é amparado pela sutileza, enquanto que P. J. Puznowski (personagem de Cameron Diaz) é o seu oposto. A química entre os dois tem fluidez, mas a tentativa de equilíbrio entre esses opostos cômicos não vinga, não se junta. Parece água e óleo: quanto mais quer se misturar, mais separado fica.
A abertura do longa-metragem já adianta o tom no tipo de comédia a ser explorado dentro da produção. Uma animação funciona como o abre alas do filme. Ela dramatiza, numa sinopse, o enredo de ‘Um Golpe Perfeito’. O mesmo material serviu também como ilustração e dinâmica para os créditos. Como numa profecia, esse pequeno filme animado não se mostra engraçado. Pelo menos essa seria sua proposta primária: um ‘teaser’ cômico do longa. Não teve graça nenhuma. O reflexo disso está no restante do filme.
Pelo menos o bom elenco segura a produção. Além dos já citados Colin Firth e Cameron Diaz, o corpo de atores do filme ainda conta com o veterano Alan Rickman como Lionel Shahbandar, empresário arrogante disposto a conseguir o famoso quadro, Tom Courtenay como o falsário Major Wingate, e Stanley Tucci interpretando o vaidoso e malfadado especialista em arte Zaidenweber.
* Anderson Bruno e crítico audiovisual.


