Uma novelinha B

* Anderson Bruno

Quando fui assistir o filme ‘A Hospedeira’ (EUA, 2012, 125 min), pretendia contemplá-lo em sua versão legendada. Apenas um dos cinemas da capital o estava exibindo de maneira original, ou seja, falado em inglês. No momento da compra do bilhete, recebo a notícia de que o material fílmico havia dado problema. No dia seguinte, obtive a mesma resposta. Precisei me contentar com a versão dublada. Imprevistos existem, claro! Mas a questão de eu fazer esse relato aqui é para narrar o desgosto de um espectador com o serviço cinematográfico oferecido.

Dia desses, fui, pela primeira vez, ao mais novo Shopping Center do Estado, bem como seu cinema. No momento da projeção de ‘As Aventuras de Pi’, passaram-se longos minutos sem que o projecionista, ou algum funcionário, percebesse o desfoque do filme. Precisei interceder avisando sobre o ocorrido. O pior é que alguns minutos depois, aconteceu de novo. Ter estresse, num momento de lazer, ninguém quer! Ainda mais quando a cópia não funciona ou o filme fica desfocado. Melhoremos nossos serviços, senhores. E quando o filme além de ser dublado é ruim também? Nossa…
‘A Hospedeira’ é uma ficção científica passada num futuro onde carros e motos são bem estilosos, com design de aço inoxidável espelhado. Seus condutores são agentes extraterrenos ‘hospedados’ no corpo dos seres humanos.

Até aí, tudo bem. Porém, o que acaba com o filme é a insistência nesse discurso de que os humanos são seres que não respeitam os outros seres humanos, seres que destróem seu próprio habitat e todo aquele blá blá blá repetido a exaustão em muitas outras produções, seja ela de ficção científica ou não.
O diretor Andrew Niccol já havia escrito e dirigido outra ficção científica (sem alienígenas) muito inteligente e verossímil. Não duvide se no futuro, a seleção por seres humanos perfeitos não for pela ordem natural das coisas, e sim, pela manipulação genética. A produção ‘Gattaca’ foi lançada em 1997, tinha Ethan Hawke, Uma Thurman e Jude Law como protagonistas e lançou o nome de Andrew Niccol como um dos mais promissores diretores a despontar no meio.

Neste ‘A Hospedeira’ ele pode até ter uma parcela de culpa pelo mau desempenho fílmico da obra, fazendo com que desdobramentos como a conversa entre a hospedeira e sua alienígena soassem como diálogos cômicos numa situação de extrema seriedade. Afinal, não é todo dia que a gente tem um ‘alien’ dentro de nós.

A história é bem fraquinha mesmo. Adaptada do livro ‘The Host’, de Stephanie Meyer (a mesma da série ‘Crepúsculo’), o roteiro baseia-se numa relação adolescente para adolescente ver. O que interessa são as fórmulas usuais como, meninos e meninas bonitinhos, um triângulo amoroso e um conflito inter-galáctico, inter-planetário, alguma coisa grande do tipo para que no final, o óbvio seja instaurado: todos vivem felizes para sempre. Isso é folhetim. O filme não passa de uma novelinha ‘B’.
A própria Stephanie trabalha como produtora deste longa-metragem. Bom pra ela que além de vender seus livros, já se embrenha também no mundo cinematográfico. Alguém tem que sair ganhando. O público é que não é.

O veterano William Hurt participa de ‘A Hospedeira’ interpretando o tio da protagonista. Uma pena ver o profissional de ‘O Beijo da Mulher Aranha’ (1985), de Hector Babenco, se perder em filmecos como este. Pelo menos, em contrapartida, Saoirse Ronan, uma grande atriz, leva nas costas o fardo desta produção. Com apenas 18 anos, ela é uma das melhores de sua geração. Pena que os tempos são outros. Ela merece coisa melhor que este ‘A Hospedeira’ aqui.

* Anderson Bruno é crítico audiovisual

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