Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
– Você aceita uma oração?
A oferta inusitada me pegou de surpresa, em plena Avenida Hermes Fontes. A senhora sorria com simpatia genuína, por trás dos óculos sérios. Atrasado para um compromisso, fiz ouvidos moucos para os mistérios do céu e da terra, mas um pedaço de mim ficou parado ali.
Segundo Dona Eliene, um preto velho me guarda desde a primeira infância. Ela o via à porta de nossa casa, cachimbando com a elegância própria dos velhos negros. A entidade nunca lhe dirigiu a palavra. Mas minha mãe o chama pelo nome de Pai João.
Quando penso neste senhor de cabelos crespos e brancos, coluna muito reta, olhar tranquilo, morro de vergonha dos meus pecados. Eu não sei se os santos têm folga, se descansam em algum momento. Por certo, as minhas palavras baixas, a sujeira dos meus gestos tão humanos ofendem a sua presença atenciosa, até às lágrimas. Em meus quarenta anos de vida, ao menos 30 foram dedicados a fazer chorar Pai João.
Eu sou um homem de meia idade, sempre atrasado, ciente de minhas responsabilidades. Mas tenho a esperança besta de um dia aquietar os desejos sufocados no peito. Um pedaço de mim permanece parado na calçada de uma igreja. Eu quero acreditar que ainda conservo algo da criança no colo de Pai João.
Hoje, Dia da Consciência Negra, ponho-me a pensar no preto velho, encucado com uma questão de pele. Negro ou pardo, pouco importa. A fé prescinde do que chega aos olhos abertos. Mesmo sem nenhuma propensão religiosa, aprendi a contar com a proteção de um senhor zeloso, sem corpo, sem rosto, sem qualquer evidência tangível além da representação fabulosa e o nome de Pai João.
– Você aceita uma oração?
A oferta inusitada me pegou de surpresa, em plena Avenida Hermes Fontes. A senhora sorria com simpatia genuína, por trás dos óculos sérios. Atrasado para um compromisso, fiz ouvidos moucos para os mistérios do céu e da terra, mas um pedaço de mim ficou parado ali.
Segundo Dona Eliene, um preto velho me guarda desde a primeira infância. Ela o via à porta de nossa casa, cachimbando com a elegância própria dos velhos negros. A entidade nunca lhe dirigiu a palavra. Mas minha mãe o chama pelo nome de Pai João.
Quando penso neste senhor de cabelos crespos e brancos, coluna muito reta, olhar tranquilo, morro de vergonha dos meus pecados. Eu não sei se os santos têm folga, se descansam em algum momento. Por certo, as minhas palavras baixas, a sujeira dos meus gestos tão humanos ofendem a sua presença atenciosa, até às lágrimas. Em meus quarenta anos de vida, ao menos 30 foram dedicados a fazer chorar Pai João.
Eu sou um homem de meia idade, sempre atrasado, ciente de minhas responsabilidades. Mas tenho a esperança besta de um dia aquietar os desejos sufocados no peito. Um pedaço de mim permanece parado na calçada de uma igreja. Eu quero acreditar que ainda conservo algo da criança no colo de Pai João.
Hoje, Dia da Consciência Negra, ponho-me a pensar no preto velho, encucado com uma questão de pele. Negro ou pardo, pouco importa. A fé prescinde do que chega aos olhos abertos. Mesmo sem nenhuma propensão religiosa, aprendi a contar com a proteção de um senhor zeloso, sem corpo, sem rosto, sem qualquer evidência tangível além da representação fabulosa e o nome de Pai João.