Rian Santos
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A deputada Ana Lúcia colocou o tema na roda e chamou o presidente do Sindicato de Músicos de Sergipe (Sindimuse) para o plenário da Assembléia Legislativa. Amanhã, durante audiência pública, Tonico Saraiva vai ocupar o púlpito da Casa para gritar aos quatro ventos que existe um cartel dedicado à contratação de determinados artistas e superfaturamento de shows no âmbito da administração pública local. Indícios existem e precisam ser investigados por quem de direito, mas o presidente do Sindimuse não é a pessoa mais indicada para apontar o dedo pra ninguém. E eu vou dizer por que.
Eu conheci Tonico na condição de repórter da Agência Voz. Meia dúzia de forrozeiros haviam se reunido numa associação com o justo objetivo de reclamar cachês mais polpudos para os artista sergipanos. O Movimento Salve tinha uma pauta extensa, composta por 47 itens levados ao conhecimento do então governador em exercício Belivaldo Chagas. Nas entrelinhas do documento, contudo, um ranço sectarista depunha contra as boas intenções da redação. Para eles, a música sergipana deveria ser entendida como produto exclusivo de seus primeiros autores, egressos da geração de 80. A vitalidade esbanjada em nossos dias, por exemplo, não passaria de uma cópia dos papocos pernambucanos. Eles não admitiam nenhuma contaminação.
A matéria foi redigida (http://spleencharutos.wordpress.com/2010/01/12/sergipe-e-mesmo-o-pais-do-forro/). Apesar de minhas ressalvas pessoais, chegou a ser publicada também na página que assino no Jornal do Dia. Mas eu fiquei com uma pulga atrás da orelha. A perseguição alegada pelo Movimento Salve não era fruto de um surto paranóico. Tonico sabia bem o que pretendia quando reclamava a injustiça. A briga não era com os coronéis aboletados nas prefeituras do interior, nem com os grandões da indústria do entretenimento. Mas com a criatividade que brotava aqui mesmo na aldeia, bem embaixo do nariz de todo mundo: "A gente percebe que existe um componente ideológico na distribuição das oportunidades. Como o forró é um gênero que sempre foi bem recebido em nosso Estado, a Secult nos identifica com governos passados. Para deixar sua marca, a secretaria nos penaliza".
Em conversas posteriores, mais à vontade para rasgar o verbo, Tonico distribuiu sopapos a torto e direito. E o fez usando todas as letras. A naurÊa teria um dono com os bolsos forrados de dinheiro público. Os editais da Secult seriam um jogo de cartas marcadas. E seguia assim. A razão de tanto ressentimento, no entanto, não tardaria a aparecer. Além de músico, Tonico é também produtor de uma banda. As Patricinhas do Forró, pastiche da tradição evocada para justificar a pauta do Movimento Salve, vinha sendo preterida nos eventos públicos. Não foi uma inquietação de natureza ética que jogou Tonico nas fileiras do movimento sindical. O menino está berrando pela mamadeira.


