Gabriel Damásio
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José Alberto Nascimento, 45 anos, o "Zé Véio", vereador do município de Ribeirópolis (agreste) pelo PR, foi preso em flagrante às 9h de ontem pelo comando do 3º Batalhão de Polícia Militar (3º BPM), acusado de pressionar policiais militares pela liberação de 14 motos apreendidas em uma blitz preventiva ocorrida na noite anterior. Segundo a polícia, os veículos estavam irregulares e nem tinham placas de identificação, mas, mesmo assim, o parlamentar esteve na sede da 3ª Companhia e, com um grupo de motoristas, tentou convencer o comandante do batalhão, major Reinaldo Chaves, a não autuar as motos e nem levá-las a um pátio do Departamento Estadual de Trânsito (Detran).
"Zé Véio" foi levado para a Delegacia Regional de Itabaiana, onde prestou depoimento com os policiais e assinou um Termo de Ocorrência Circunstanciada (TOC), antes de ser solto no início da tarde. O político foi autuado pelo crime de advocacia administrativa, previsto pelo artigo 321 do Código Penal, que proíbe a prática de "patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a administração pública, valendo-se da qualidade de funcionário" ou ocupante de cargo público. Ele vai responder ao processo em liberdade por se tratar de um crime de menor potencial ofensivo, mas se for condenado, pode pagar multa e cumprir pena de até um ano de prisão.
A blitz, conforme a PM, foi uma operação preventiva montada para coibir irregularidades e conter assaltos e outros crimes cometidos por criminosos em motocicletas e motonetas nas ruas e povoados de Ribeirópolis. Durante a ação, foram apreendidos 14 veículos, sendo 13 motos que estavam sem a placa de identificação e um ciclomotor da marca Shineray que não tinha o escapamento. Mais tarde, uma consulta ao sistema de dados do Infoseg constatou que uma das motos era roubada. A ação começou na tarde de anteontem e se estendeu até às 23h, quando começou o assédio ao tenente que comandou a operação.
"Meia hora depois do termino, o tenente me ligou informando que alguns políticos estavam pressionando para que ele liberasse os veículos. Pedi a ele para que não se preocupasse, recolhesse as motos para a companhia, onde tem uma garagem, e permanecesse lá até o dia seguinte", disse Reinaldo, ao explicar que a recolha de veículos ao Detran não é permitida durante a noite. Ontem, já no início da manhã, o comandante saiu de Areia Branca, onde estava e chegou a Ribeirópolis com o guincho do Detran e um reforço de policiais. Eram por volta de 8h e a romaria dos motoristas à sede da 3ª Cia/3º BPM continuava.
Chaves e o tenente responsável pela companhia preparavam o relatório da Operação quando o vereador "Zé Véio" entrou na sala e pediu para falar com o comandante, insistindo na liberação das motos. "Ele informou que era amigo da polícia, que inclusive já tinha abastecido viaturas da polícia quando acabava a gasolina, que era amigo dos policiais e gostaria de saber o que eu poderia fazer para liberar os veículos. Informei a ele que, como os veículos estavam sem a placa policial, eles seriam autuados e recolhidos ao Detran", relatou o major. Foi aí que as insistências aumentaram, com o político protestando contra a ação da polícia e afirmando que ela "vai ter que apreender todos os veículos de Ribeirópolis, pois todos circulam de forma irregular".
Mesmo com o argumento do major, Alberto fez um argumento mais ousado: insinuou que um promotor do Ministério Público da comarca local teria "passado vergonha" depois de uma audiência pública para a criação da SMTT de Ribeirópolis, por conta das supostas reclamações dos motociclistas e dos vereadores. O major sentiu que era a gota d’água: chamou os oficiais e deu voz de prisão ao parlamentar. "O vereador, de forma insistente apesar de bem-educado, tentou desconstruir todo o trabalho da Polícia Militar. Isso a gente não pode permitir, até porque qualquer policial que libere [o veículo irregular] irá responder por crime de peculato", declara Reinaldo.
"Zé Véio" foi inicialmente levado para a Delegacia de Ribeirópolis, mas o procedimento seguiu para Itabaiana porque não havia escrivão de polícia na cidade. Em entrevista à TV Atalaia, o vereador disse ontem à tarde que "não fez nada de errado" e até admitiu que foi pedir que as motos fossem liberadas para ajudar alguns amigos, mas negou ter oferecido ou exigido nada em troca. Disse também que vai levar o caso à Justiça e processar o Estado.


