Vítimas de acidentes de trânsito superlotam Huse e sobrecarregam profissionais

Na noite da véspera do Natal, 24, o lavrador José de Jesus, 55, acabou caindo da moto que pilotava no Povoado Mangue Grande, em Boquim. A velocidade teria sido a causa do acidente. "Não tinha bebido, estava indo para casa, mas não vou mentir que estava correndo um pouco. Como a estrada era de terra, acabei derrapando em um quebra mola e caí em uma cerca de arame farpado. Agora estou aqui com essa fratura na perna", explicou o lavrador que sofreu uma fratura de tíbia (maior osso da perna).
O estudante Wagner Vitor dos Santos, 31, morador do município de Nossa Senhora do Socorro, também passou por uma experiência parecida. Na noite desta quinta-feira, 25, estava em uma festinha com amigos. Na volta para casa perdeu o controle da moto e acabou caindo, sofrendo varias escoriações pelo corpo. Mesmo com o capacete, instrumento indispensável e essencial para motoqueiros, o rosto do jovem ficou muito machucado.

"Foi tudo rápido e não me lembro de muita coisa. Quando acordei já estava aqui no hospital. Minha sorte que não quebrei nada, mas já me vi no espelho e meu rosto está bastante machucado. Acho que corri um pouco, mas depois dessa aprendi a lição que velocidade e moto não combinam", ressaltou o jovem.
Esses relatos são, cada dia, mais comuns e crescentes. E os dados do sistema de informação hospitalar do Huse, o Hospub, comprovam isso. De 2013 para 2014, o percentual de pacientes internados vítimas de acidente de trânsito subiu de 42% para 58%. Entre esses acidentes, o tipo que mais cresceu foi o que envolve motonetas. Nesses casos, o aumento chegou ao patamar absurdo de 346,67%, seguido pelos acidentes de carro (21,17%), os acidentes com motos (26,20% de aumento), e de atropelamentos (19,69%).

A imprudência e a violência no trânsito impactam diretamente na rede hospitalar do Estado. Uma ultrapassagem indevida, o uso de bebidas alcoólicas associado à direção, o excesso de velocidade, tudo isso reflete diretamente na superlotação dos hospitais e na sobrecarga dos profissionais de saúde. Como as vítimas de acidentes de trânsito geralmente passam mais tempo internadas, são mais leitos ocupados por um período maior e, com o número de vítimas de acidentes crescendo, aumenta também a ocupação de leitos com esse tipo específico de paciente, ficando cada vez menor a quantidade de leitos para todas as demais necessidades.

"Essa situação de epidemia de acidentes tem modificado a arquitetura hospitalar. Antes a quantidade de leitos cirúrgicos era a mesma dos leitos para as demais especialidades. Hoje, no Huse, temos 258 leitos cirúrgicos e 168 para as demais especialidades, ou seja, 90 leitos cirúrgicos a mais. Além disso, a priorização para internamento, inclusive na UTI, também vem sendo modificada. A prioridade, que antes era daquele paciente que estava no pronto-socorro, passou a ser do paciente pós-operado no Centro Cirúrgico, pois se não for feito isso o Centro Cirúrgico fica superlotado, travado, sem vaga para novas cirurgias, gerando colapso do sistema de urgência. O mesmo modelo vem sendo adotado pelas unidades particulares em relação aos leitos intensivos que antes eram para prioridade única e atualmente tem um quantitativo reservado especificamente para pacientes em pós-operatório", explica Márcia Guimarães, coordenadora da Atenção Hospitalar de Urgência e Emergência da Secretaria de Estado da Saúde.
Para acelerar a realização de cirurgias ortopédicas, sem comprometer os demais procedimentos realizados no Centro Cirúrgico do Huse, a exemplo das cirurgias neurológicas e vasculares, a Secretaria de Estado da Saúde vem adotando uma estratégia em parceria com Hospital Cirurgia.

"Mantivemos contato com a direção do Hospital que, neste período, reduz significativamente a utilização das salas cirúrgicas e encaminhamos equipe cirúrgica de ortopedistas com anestesista da rede FHS para realizar esses procedimentos no Hospital Cirurgia, reduzindo o tempo de espera dos pacientes que aguardam a cirurgia no Huse, liberando as salas para outros procedimentos", explica a secretária de Estado da Saúde, Joélia Silva Santos.
"Além disso, estamos avaliando a contratação de cirurgias ortopédicas extras para zerar a espera por procedimentos cirúrgicos ortopédicos, sejam cirurgias de urgência ou de segundo tempo, que são aquelas cirurgias realizadas posteriormente as primeiras, a exemplo de retirada de pino ou placas internas", complementa a secretária.

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