Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br
Uma surpreendente Reviravolta no caso da morte do procurador estadual aposentado Antônio Melo de Araújo, 63 anos, atropelado no dia 6 de abril deste ano, enquanto caminhava na Avenida Melício Machado, bairro Mosqueiro (zona de expansão de Aracaju). De acordo com as investigações da Delegacia Especial de Delitos de Trânsito (DEDT) da Polícia Civil, o acidente se trata, na verdade, de um assassinato atribuído a cinco pessoas que foram presas ontem de manhã. Entre elas, está a viúva do ex-procurador, Anoilza Santos Gama Melo de Araújo, 43, apontada como mandante e principal mentora do crime.
Além dela, foram presos Felipe Dias Gomes, 27 (genro de Anoilza), Gabriela Figueiredo Guedes, 27 (colega de trabalho da acusada), Gabriel Ernesto Nogueira de Oliveira, 26 (marido de Gabriela), e Manoel Nogueira Neto, 64 (pai de Gabriel). Todos eles tiveram prisão temporária de 30 dias decretada pela Justiça e prestaram depoimento durante todo o dia à delegada Daniela Lima Barreto. Outros dois homens que ainda são procurados pela polícia teriam dirigido o carro usado no crime. Eles foram identificados por meio de imagens do circuito interno de TV de um posto de gasolina da Avenida Tancredo Neves.
Antônio Melo foi atropelado um VW Polo de cor prata que o acertou pelas costas e o arrastou por cerca de 25 metros, tendo seu corpo preso ao para-brisa. Um laudo do Instituto de Criminalística apontou que o carro invadiu a contramão da avenida e, depois de acertar a vítima, deu um cavalo-de-pau e fugiu pelo sentido contrário ao que vinha. Segundo a delegada, vários detalhes incomuns despertaram a desconfiança da polícia.
"A dinâmica empreendida pelo veículo no momento do acidente não era compatível com a cena do acidente, porque ela sugeria um acidente causado por motorista embriagado. A dinâmica é bastante complexa, incompatível com a movimentação de uma pessoa embriagada, o carro que foi usado era roubado… e outras informações foram surgindo no curso do inquérito, demonstrando que, de fato, foi algo planejado para parecer um acidente de tráfego, e não um simples homicídio", disse Daniela.
Um dos detalhes está em contas de energia elétrica que foram esquecidas no veículo, que foi encontrado na Estrada dos Três Porquinhos, paralela à Melício Machado. Após consultas, a polícia descobriu que o Polo era um carro dublê, ou seja, o carro original foi roubado em Alagoas, mas utilizava uma placa regular de um veículo que transita normalmente no Rio de Janeiro. As contas levaram ao nome de Manoel Nogueira, que, em depoimento, reconheceu que tinha a posse do carro, mas disse que nunca soube que o veículo era roubado. Uma perícia da Criminalística apontou ainda que as latas e garrafas de uísque e cerveja achadas no Polo foram colocadas na cena do crime.
Relações suspeitas – Outro detalhe, segundo Daniela, está nas relações de amizade e parentesco entre os envolvidos e a vítima, as quais se comunicariam com frequência. "O filho do senhor Manoel [Gabriel], que foi a pessoa que conseguiu o carro a ser usado, é esposo de uma colega de trabalho muito próxima da Anoilza. E existe um vínculo entre o dono do carro e a viúva, e isso ficou demonstrado no curso das investigações. Essa ligação muito próxima entre as pessoas é incompatível com um acidente culposo de trânsito", informou a delegada, que agora busca saber como aconteceu a articulação entre os envolvidos. "Esses detalhes vão surgir agora nos depoimentos dos suspeitos. Queremos saber se houve uma promessa, um pagamento ou algum outro benefício para execução do homicídio", acrescentou.
A polícia sustenta ainda que Gabriel e a esposa, além de conseguirem o carro, fizeram contato e acertaram a participação dos dois autores do atropelamento. Felipe, por sua vez, é acusado de forjar uma suposta carta atribuída ao ex-procurador. "Esta carta foi apresentada no curso das investigações por familiares da vítima, que disseram que tiveram acesso ao documento por meio da viúva, que por sua vez, informa ter achado o manuscrito em meios aos pertences do falecido. A carta tem registros biográficos e ao final há uma menção de despedida da vida e do mundo, fazendo crer que Antônio anunciava um suicídio. A carta foi periciada e o perito disse que não se trata de um manuscrito feito por Antônio Melo, mas por Felipe Dias Gomes", revela Daniela, pontuando que o objetivo disto era desviar o foco das investigações.
A motivação do assassinato ainda é desconhecida, mas as provas colhidas pela polícia apontam para três hipóteses prováveis: crise depressiva de Antônio agravada por fatores conjugais, indícios de que a viúva mantinha um relacionamento extraconjugal muito sólido e conhecido de várias pessoas, e um pedido de separação de Antônio que poderia causar prejuízos financeiros à Anoilza. Agora, a titular da DEDT pretende concluir os depoimentos enquanto durar a prisão temporária, para decidir se confirma ou não o indiciamento dos acusados por homicídio doloso qualificado.


